quinta-feira, 2 de abril de 2020

Pensamento oriental


A revista Religare - periódico semestral do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba - publica regularmente trabalhos de investigação sobre as grandes correntes do "Pensamento oriental", expressão da nossa preferência por nela integrar os diversos componentes das ancestrais sabedorias: elementos filosóficos, religiosos, culturais, espirituais. 
São trabalhos de interesse para o conhecimento, entre outras, das correntes do Hinduísmo, Budismo, Jainismo, Confucionismo, Taoismo.
Destacamos aqui dois fascículos, com a indicação completa dos respetivos índices, estando os seus artigos todos eles disponíveis em livre acesso. 
Aos interessados nestes assuntos, recomendamos a pesquisa em todos os outros fascículos da mesma revista, já que se encontram muitos outros contributos ao longo dos 32 fascículos que a revista contabiliza até à presente data.


VOLUME 12, n. 2 (2015): dossiê “Religiões, Filosofia e Espiritualidades Chinesas”

> Editorial - Matheus da Cruz e Zica: 226-229
> A arte, a magia e os deuses: trilhar as tradições de Macau - Mônica Simas: 230-243
> Rota da seda: trânsitos culturais e sagrados nos caminhos da China - Maria Lucia Abaurre Gnerre: 244-259
> Do karatê ao kung fu: cinema, religião, elementos marciais e religiosos japoneses e chineses e sua recepção no Brasil (1984-2010) - José Otávio Aguiar: 260-277
> Um TAO Descartes - Matheus da Cruz e Zica: 278-294
> O pensamento chinês: filosofia ou religião? - Joaquim Antônio Bernardes Carneiro Monteiro: 295-314
> TRADUÇÃO: A Sociedade Taoísta do Brasil e a globalização do Daoismo da Ortodoxia Unitária - Daniel M. Murray, James Miller: 315-343 (Tradução de Matheus Costa e Fábio Stern)
> ARTIGO LIVRE: Concepções e ritos de morte na Jurema paraíbana - Dilaine Soares Sampaio: 344-369
> RESENHA - GNERRE, Maria Lúcia Abaurre; POSSEBON, Fabrício (orgs.). China Antiga: aproximações religiosas, Matheus Oliva da Costa: 370-377

VOLUME 9, n. 2 (2012): dossiê "Religiões Orientais"

> Editorial - Maria Lucia Abaurre Gnerre, 113-117
> O PROBLEMA DO MAL E A TEODICÉIA OCIDENTAL. O QUE O TEÍSMO E NÃO-TEÍSMO INDIANOS TEM A DIZER SOBRE ESTE DESAFIO? - Puroshotama Bilimoria, 118-140
> DHARMAKAYA & NIRVANAKAYA: CORPOS DE ÊXTASE NA POESIA DE AUGUSTO DOS ANJOS - Sandra S F Erikson, 141-152
> CECÍLIA MEIRELES E A ÍNDIA: DAS PROVISÓRIAS ARQUITETURAS AO “ÊXTASE LONGO DE ILUSÃO NENHUMA” - Gisele Oliveira, 153-161
> TRADUÇÕES DA LITERATURA FICCIONAL INDIANA PARA O PORTUGUÊS: UMA QUESTÃO CULTURAL - Gisele Lemos, 162-166
> RELIGIÃO, EDUCAÇÃO E MARCIALIDADE NA FORMAÇÃO HISTÓRICA DO KUNG FU: ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE UM CAMPO DE PESQUISAS RECENTE NO BRASIL - Matheus da Cruz Zica, 167-176
> YOGA PARA CRIANÇAS – UMA PRÁTICA EM CONSTRUÇÃO -Maria Claurenia de Andrade Silveira, 177-185
> O CONCEITO DE FELICIDADE NA BHAGAVAD-GITA: SIMILARIDADES E CONTRASTES COM O PARADIGMA HEGEMÔNICO NO OCIDENTE - Thiago Pelucio Moreira, 186-194
> MORTE NO HINDUÍSMO: TRANSMIGRAÇÃO E LIBERTAÇÃO - Lucio Valera, 195-204
> POSTULADOS DO VEDANTA: CONTRIBUIÇÕES DE VIVEKANANDA PARA TRANSFORMAÇÃO SOCIAL A PARTIR DO REPOSICIONAMENTO DO SUJEITO DIANTE DE SUA EXISTÊNCIA, SIGNIFICADO E VALORES - Livia Borges Lopes, 205-218
> A REPRESENTAÇÃO DA MULHER E DA NATUREZA NO BUDISMO MEDIEVAL - Zelia Bora, 219-228
> CRÍTICA BUDISTA DE NIETZSCHE - Derley Menezes Alves, 229-243
> A NATUREZA DA VACUIDADE A LEITURA DO PRAJNĀ PĀRAMITĀ A PARTIR DE O ORNAMENTO DA CLARA REALIZAÇÃO DO BUDA - Deyve Redyson, 244-251

terça-feira, 31 de março de 2020

Filosofia Portuguesa: pensamento aberto à pluralidade



Por ocasião da publicação da monumental obra intitulada "História do pensamento filosófico português", a jornalista Raquel Santos entrevistou Pedro Calafate [PC], Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e Coordenador da referida obra.

Do interessante diálogo, retemos alguns pontos que nos parecem bastante significativos, seguindo de muito perto a explanação de PC.

Desde logo, a questão da existência, ou não, de um pensamento, ou mais propriamente, de uma filosofia “portuguesa”, própria e específica, enquanto tal. Trata-se de um problema persistente ao longo do tempo, mas avivado, sobretudo, no séc. XX, e de cuja abordagem não se pode cindir o modelo de filosofia que se instalou na mente coletiva, a saber, um modelo de reflexão sistemática e sistematizadora, argumentativa, ordenada segundo uma disciplina lógica, rigorosa hierarquizada, que lhe garante a unificação, e de que as tradições germânica, inglesa, francesa, são os melhores representantes. Há que convir que este modelo não é o mais corrente entre nós, não é o mais praticado pelos nossos intelectuais, pelos pensadores.
Entre nós toma lugar, frequentemente, um pensamento mais indisciplinado, no “sentido em que percorre várias áreas do saber”, se adentra e se mistura com outras áreas que não apenas a área da Filosofia. Os diversos temas filosóficos expressam-se abundantemente nos domínios da literatura, da poesia, da parenética, isto é, em textos, que à primeira vista não seriam textos tecnicamente filosóficos, como são considerados, tradicionalmente, os tratados.  
Porém, não é esta “dispersividade” que caracteriza primordialmente o núcleo do nosso pensamento. Como diz PC, “há ritmos”, há tendências a que é preciso dar atenção, e que até podem contradizer essa miscigenação de géneros discursivos a que somos tão propensos. Por exemplo, recorda PC, há duas grandes escolas do pensamento filosófico português que atingiram enorme projeção: a escolástica, entre nós designada por “Segunda Escolástica” ou Escolástica Renovada, obra da Companhia de Jesus e do Colégio das Artes que lhe foi confiado por D. João III, que se desenvolveu num verdadeiro espírito de rigor e como autêntico sistema. A outra escola de pensamento foi o positivismo, já no séc. XIX, também com rigor e sistematicidade. Ou seja, há que ter em conta uma certa “pluralidade de formas de expressão do pensamento” e de estilos discursivos que a filosofia adquire na cultura portuguesa, que lhe confere uma riqueza enorme e que exige do intérprete e do estudioso uma grande ginástica. É sempre um grande desafio.

PC faz referência à influência da heresia do priscilianismo, na fase emergente do cristianismo, e à sua tendência para o naturalismo, o culto da natureza, que vai assomando aqui e ali, em diversos autores, e particularmente nos “heterodoxos” do séc. XIX e XX: T. de Pascoaes, G. Junqueiro, Sampaio Bruno…, linhas de continuidade nas quais se acentua esse misticismo da natureza.

Também o traço do messianismo, na sua complexidade, lhe merece consideração. Não o messianismo, entendido como simples espera da vinda de um novo messias, um salvador, mas o messianismo na sua vertente mais rica para as ideias, como “crença na redenção futura da humanidade”. Precisamente, na linha de Pascoaes, como sinónimo da luta pela vitória sobre a dor, sobre o sofrimento e sobre a queda; e logo, como esperança na recuperação de uma cisão, de uma rutura sobre a qual se instalou o mundo. É neste sentido que há autores interessantes messiânicos, não cristãos, que negam o dogma cristão da criação, pois entendem que “o mundo não foi criado voluntariamente por Deus”, mas “o mundo resulta de uma queda de Deus”; por isso, Deus não é omnipotente e carece mesmo da ajuda do homem para se reerguer e assim redimir a própria criação. É deste novelo que Pascoaes assume o saudosismo, um projetar a redenção de Deus, do homem e humanidade, de um homem que “ajuda Deus decaído a recuperar-se, a reunificar-se após uma cisão misteriosa, após uma criação involuntária”.

Vem a terreiro Raul Brandão e o seu escrito O Padre, no qual se inscreve a incontornável problemática existencial nietzscheana da morte de Deus e com ela, a da perda de referências, a desarmonia e desestruturação do mundo, o não-sentido, sem balizas, “sem teto, entre ruínas”, no fundo do abismo, a modo do desesperante pessimismo dos finais do séc. XIX. Trata-se, segundo PC, “do tema mais dilacerante do nosso tempo: saber se Deus existe, ou não existe!” Perante a impossibilidade da resposta afirmativa ou negativa, fica a expressão de um desejo: “Deus existe porque a melhor parte de nós quer que Ele exista”! Raul Brandão retira a discussão do plano da fé e do dogma e trá-lo para o âmago da interrogação profunda do homem, expressando a sua revolta contra a morte; a melhor parte de nós revolta-se contra a finitude, contra a morte, a hipocrisia, projetando-se para o infinito. Raul Brandão funciona aqui como um exemplo paradigmático, mas algo esquecido, com o seu teatro existencial, os seus diários e ensaios, feitos de um lastro profundamente existencial, percursor – recorda PC – de muitos temas assumidos por Sartre, Camus…; no fundo, o mesmo espanto do homem pela descoberta de si… presente em tantos outros, como Virgílio Ferreira.

E sempre a interrogação-âncora: é disto que é feita a identidade da filosofia portuguesa? PC responde com muita prudência. Não lhe interessa a identidade em sentido estático, mas em sentido dinâmico, como “descoberta permanente” e evolutiva de nós próprios. Neste sentido, a questão da identidade não se resolve em termos científicos, antes é uma questão de resposta aberta e inacabada, trabalhosa também. E é muito elucidativa esta hermenêutica da identidade. PC afirma que ela se encontra, por exemplo, na “atmosfera” destes textos, na forma como se foram, gradualmente, elegendo determinados problemas e temáticas. Assim, entre nós, prevalecem os temas de natureza ético-política e jurídica, teológica, o tema de Deus – seja num sentido mais ortodoxo ou mais heterodoxo – está sempre presente, bem como o da organização da sociedade, dos fundamentos do Estado, origem e finalidade do poder, da ideia de Império, tudo isso são dados importantes para a ideia da construção de um destino comum, de um destino coletivo, que liga imediatamente com a questão da relação entre a Igreja e o Estado, questão que vem desde a fundação da nacionalidade até ao presente.

 A questão da identidade liga-se ao problema “Portugal”. De facto, a nossa cultura institucionalizou essa magna e persistente questão, vivida com particular ênfase pelos “estrangeirados”, mas não só. Problema que desencadeou, também, uma visão decadente e que hoje nos atinge. PC explica de modo cristalino, como passámos de uma “perspetiva de segurança profunda do nosso destino até finais do séc. XVII” e rapidamente caímos no seu oposto, para uma ideia de “povo que pouco vale”, somos como uma folha em branco a ser escrita e moldada não já por nós, mas pelos de fora, pelos europeus, que trazem a garantia e o progresso, sinónimo de modernização do País!

Por último, uma reflexão sobre o sentido da homogeneidade de pensamento do Séc. XVIII. Neste Século das Luzes há “uma grande identidade de pensamento entre os autores”. O problema que os move é, sobretudo, o combate à Escolástica e a imposição pela força do Estado absoluto e do despotismo esclarecido, de modo “a retirar Portugal do domínio da Escolástica e do modelo cultural da Companhia de Jesus”. Havia uma consciência dramática, trágica, de que Portugal estava numa via errada, tinha escolhido um caminho errado. E era preciso emendá-lo, com urgência.

Uma entrevista a rever e refletir, em todo o tempo.

sábado, 28 de março de 2020

Uma Viagem ao Pensamento Filosófico Português


Página de "Filosofia Portuguesa", organizada por Pedro Calafate [PC] (que dirigiu também a extraordinária publicação História do Pensamento Filosófico Português, Lisboa: ed. Caminho, 1999 e ss.), que pretende, sinteticamente, «fornecer um conjunto de informações básicas sobre o panorama da cultura filosófica portuguesa», no dizer do próprio.
Aí apresenta o elenco de autores e temas e respetiva bibliografia, remando contra o tão frequente "não sei nem conheço", ou até mais radical "não há nem existe", quando de filosofia portuguesa se trata, «dando lugar a um colonialismo interno de efeito pernicioso».
Logo na Introdução, PC orienta, de modo cristalino, o leitor para a legitimação do modo português de filosofar, no qual não predomina, certamente, a expressão sistemática da reflexão, mas que nem por isso deixa de revelar plena coerência, profundidade e transcendentalidade das suas orientações. Por isto mesmo, será uma filosofia mais dispersa por textos ora de «tendência adissertacional», ora mais ligados a causas distintas, sociais, políticas, estéticas, pedagógicas, religiosas, etc., exigindo o desdobramento da pesquisa e da leitura por um corpus mais dilatado, à medida dessa diversidade textual. Mas o não predomínio de uma filosofia de sistema, não significa que esta tenha estado, entre nós, totalmente ausente, como o ilustra a escolástica renovada e o positivismo.
Na referida Introdução, PC justifica a opção cronológica e o elenco apresentado, iniciando-se com Paulo Orósio e S. Martinho de Dume, e finalizando na obra de Vergílio Ferreira.
Uma página muito útil para quem deseje iniciar-se nesta viagem de aproximação ao Pensamento Filosófico Português.
Períodos [autores] analisados:
> Época Medieval
> Renascimento e Contra-Reforma
> As Luzes
> Do Século XIX até à Proclamação da República
> A Filosofia Portuguesa depois de 1910

quarta-feira, 25 de março de 2020

Confissões de mulheres apaixonadas... pela Filosofia!


[clique no link]
Interessantes testemunhos sobre o modo e o porquê do entusiasmo destas jovens mulheres pela Filosofia. 
"O pensar sobre o pensamento" fascinou a Isabel. Juntamente com a descoberta da Filosofia como esse lugar de liberdade, onde se refez das ditaduras que tanto a condicionaram.
Susana já lia Nietzsche desde os doze anos!
Luciana virou para a química, mas não pôde prescindir de questionar a natureza do átomo, da molécula... e aí entendeu que precisava de uma âncora que lhe respondesse a "algo mais" que a sua ciência, só por si, não lhe dava.
Juliana, já pressentia, como criança, juntamente com a sua beleza, a sua intrigante "diferença" no perguntar; era o insistente "porquê" que não mais a abandonaria.
Ana Cristina, também, desde muito jovem, representava o mundo e a sociedade como um grande palco, tudo encenado…  Tanta orquestração só a poderia atrair para a inevitável interrogação: o que é que isto tem de autêntico? Onde está a verdade?!
E assim a Filosofia faz mesmo caminho, encarnando nestes rostos, remexendo estas vidas. 
O sentido da religião, da política, da arte, do outro, da natureza, da razão, da finitude... e sempre, sempre, a construção da felicidade. São tantos os abraços da Filosofia!
Um conjunto de entrevistas a ver e problematizar. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Oriente e Ocidente: complementaridades religiosas em prol do ser humano

Diário do Minho, 04/12/2019, p. 16
[Texto publicado no Jornal Diário do Minho, 04.12.2019]


Passados uns bons pares de anos, surgiu-me recentemente a oportunidade de regressar à lecionação de uma das matérias da minha predileção: o pensamento oriental, na sua mescla mais genuína, feita de filosofia, religião e espiritualidade.
Nesta espécie de «regresso às origens» tive a graça de encontrar turmas motivadas pela matéria, a que não será estranha esta atração pelo Oriente da sabedoria, da meditação e do Yoga, dos Mestres iluminados, do relaxamento e da busca de cura para tanto sofrimento com que o estilo de vida ocidental nos tem esmagado…
Independentemente do assunto estar agora, segundo parece, muito na moda (sempre o considerei atual), o que é certo é que, grandes e sérios pensadores, ao longo da História, têm alertado para os riscos que emergem sempre que estas duas  metades do planeta se ignoram ou se hostilizam, em contraponto com os benefícios e vantagens provindos de uma visão holística e compreensiva das suas complementaridades, da unidade que lhes está subjacente.
Tem sido esta a linha hermenêutica que me tem guiado nos programas que tenho desenvolvido com as respetivas turmas. Partimos da ideia orientadora de que, mesmo quando se manifestam como tradições discordantes, pensamento oriental e pensamento ocidental contribuem, por isso mesmo e decisivamente, para uma visão mais completa do ser humano. Daí a importância de um conhecimento aprofundado das suas doutrinas matriciais, escolas, autores, e obras mais significativas.
A aceitação generalizada desta perspetiva interpretativa leva a que, hoje, não exista praticamente nenhuma área do conhecimento e da atividade humanas que não procure cruzar, mediante aprofundados estudos interculturais, as raízes e os legados da sabedoria oriental e da sabedoria ocidental (designação intencionalmente generalista), desde o âmbito da religião à economia, da estética à ciência, da arte à gestão, da literatura à política, etc.
Como demonstração dos benefícios deste pragmático estudo, que designo de “regime de complementaridades”, aqui deixo dois ou três exemplos que considero significativos.
O primeiro caso: um jovem estudante da Faculdade de Teologia de Braga, membro de uma Ordem Religiosa, que no ano transato integrava uma das turmas, entusiasmou-se pelo pensamento do filósofo chinês Mêncius, cuja Obra foi traduzida pelo eminente sinólogo Jesuíta, Pe. Joaquim Guerra. Este jovem encontrou nestes textos matérias, pontos de vista e orientações que lhe permitem estabelecer amplas pontes com o Cristianismo. 
O segundo caso, passou-se recentemente, no contexto da prestação de Provas de Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês, de uma jovem chinesa, na Universidade do Minho. A jovem acabava de concluir brilhantemente a defesa da sua excelente dissertação, tendo comparado o catolicismo e o protestantismo na China e em Portugal. Já em descontraído diálogo, finalizadas as formalidades académicas, perguntei-lhe em que tipo de ocupação laboral pensava ela aplicar os conhecimentos da sua tese. No meu imaginário, presumia que o leque não fosse muito além de um hipotético trabalho na área do ensino, ou numa Igreja… Pois, qual o espanto quando me responde que não, o que ela almeja é mesmo integrar, como tradutora, os quadros de uma empresa, no sector industrial, ou no comércio… Mas, e porquê esta aquisição de bagagem de cultura religiosa? Não seria muito mais adequado ter investigado doutrinas da economia, da gestão, do direito…? O mistério esclarece-se rapidamente, na graciosidade da sua pronta resposta: «sem conhecermos a estrutura religiosa dos povos, não entendemos nada do ser humano!» Eis um axioma universal, tanto lá como cá – tem toda a razão!
Finalmente, para reforço deste “regime de complementaridades”, indico duas significativas referências bibliográficas atuais.
A primeira publicação tem como autor Stephan Rothlin S.I. e intitula-se “La dottrina sociale della Chiesa in Cina, Un riferimento per l’etica degli affari” (La Civiltà Cattolica, 2019, I, nº 4046, pp. 129-140). Neste artigo é revisitado o documento A vocação do gestor - publicado pelo então Pontifício Conselho da Justiça e Paz em 2011 e recentemente traduzido para chinês - para evidenciar o papel da Doutrina Social da Igreja na construção de um quadro de referência para a ética dos negócios internacionais. Mostra, também, como esta Doutrina se pode ligar à filosofia moral confuciana, em modalidades que asseguram especificamente um melhoramento da ética comercial internacional na China.
A segunda publicação é um longo estudo de quase 400 páginas do autor Zhang Yunliang, intitulado “Lao Tzu and the Bible. Valutazione critica dell’opera di Yuan Zhiming” (Rivista Sacra Doctrina, vol. 62, fasc. 2, 2017). Como o título indica, trata-se de um profundo estudo comparado das religiões taoista e cristã, centrado na obra de Yuan Zhiming. Para além de outros aspetos, é um trabalho de grande valor para a compreensão da evangelização e da inculturação na China.
A quem interessar, estas duas publicações periódicas podem ser consultadas na Biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UCP. [Carlos Bizarro Morais]
Alunos do Seminário Temático em "Espiritualidades Orientais" - Faculdade de Teologia / Braga

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"Jorge de Sena e o Cinema": a crítica de arte de longo alcance!

CARTAZ DO COLÓQUIO INTERNACIONAL "SENA HOJE"
No dia 21 de novembro de 2019 apresentei a Comunicação intitulada “Jorge de Sena e o Cinema”, integrada no XXI Colóquio de Outono – Sena Hoje. Colóquio Internacional Comemorativo do Nascimento de Jorge de Sena.
Este Colóquio realizou-se nos dias 21 e 22 de novembro na Universidade do Minho - Braga, e foi organizado pelo Instituto de Letras e Ciências Humanas e pelo Centro de Estudos Humanísticos da mesma Universidade.
A referida Comunicação, tal como o título indica, constituiu uma excelente oportunidade para aprofundar o lugar e o significado do Cinema no itinerário do crítico de arte Jorge de Sena. Mais especificamente, tal como redigimos na síntese que integra o Livro de Resumos (pg. 28) deste Colóquio:
«Tendo como principal referência bibliográfica o volume que reúne os textos de Jorge de Sena sobre a arte do cinema, intitulado “Sobre Cinema” (Organização e introdução: Mécia de Sena, Co-organização e notas: M. S. Fonseca, Cinemateca Portuguesa, 1988), propomo-nos refletir acerca da atualidade do modo de olhar seniano sobre a imagem cinematográfica.
Valorizando toda a sua ampla paleta estilística – o ensaio, a anotação, o comentário, a analise critica – procuraremos evidenciar como Jorge de Sena abre metodologicamente os filmes à realidade do mundo, sem deixar de preservar neles mesmos a sua dimensão de mundo, enquanto verdadeiras obras de arte.
EXTRATO DO PROGRAMA OFICIAL DO COLÓQUIO
A atualidade da escrita de Jorge de Sena revelada nestes textos reside, entre outros aspetos, quanto nos, no seu rigoroso equilíbrio com que consegue observar e registar – qual analista fenomenólogo – as duas dimensões que identificam as potencialidades da imagem fílmica: a dimensão formal que faz dela uma realidade “em-si”, na sua autonomia ontológica; e a sua significação dialética que a coloca sempre em relação e faz dela um “para-nos” na sua temporalidade histórica.
Por tudo isso, consideramos que os textos da referida Obra devem ser revisitados, e Jorge de Sena deve ser revalorizado como um autêntico mestre e pedagogo do espetador de cinema, que somos todos nós.»

Palavras-chave desta Comunicação: «Jorge de Sena». «Cinema». «Critica cinematográfica». «Estética da Imagem».

sábado, 19 de outubro de 2019

DST - um Grupo Empresarial que valoriza a Filosofia e as Humanidades como molas da Produtividade!

Quantos empresários neste País facultariam aos seus quadros laborais uma formação apostada em abrir perspetivas mentais e vivenciais, muito além do círculo específico dos saberes e das competências técnicas restritas a cada tipo de trabalho? Quantos cuidariam de enriquecer o seu “pessoal”, com novas experiências de cultura humanística e de pensamento filosófico?! 
Ainda mais significativa se torna a interrogação/exclamação quando se verifica que este desejo de tornar mais "cultos"  os colaboradores da Empresa não decorre apenas de um vago sentimento de generosidade - que de si já seria verdadeiramente digno de nota - mas corresponde a um eixo estruturante da uma moderna noção de gestão  e de desenvolvimento de uma empresa que quer estar aberta ao desafio permanente da inovação. 
É assim com o Eng. José Teixeira, líder do Grupo DST. Ele sabe, pela sua prolongada experiência e hábitos de reflexão, que juntamente com o conhecimento das metodologias científicas da economia, da engenharia, da gestão e da administração, e que juntamente com o rigoroso conhecimento das novas tecnologias, há competências que provêm do âmbito específico das literacias das artes, da filosofia e das humanidades, que são absolutamente indispensáveis para a plena rentabilização dos outros saberes que fazem avançar uma Empresa. Falamos de competências diversas, como a da plasticidade de pensamento, da imaginação criativa, da ponderação do inusitado, da articulação das transversalidades, do pensamento crítico, da desarrumação do mundo e subsequente reestruturação da experiência (P. Ricouer), da inteligibilização de determinados valores (como o bem, a justiça, o equilíbrio, o belo), competências argumentativas e comportamentais que se congregam na holística tarefa de CONSTRUIR UM ESTILO, e que por isso são consideradas como condimentos indispensáveis para a verdadeira PRODUTIVIDADE de uma Empresa aberta ao futuro.
Foi esta forte convicção que levou o Chairman e CEO do Grupo DST a desafiar a Católica a criar uma Pós-Graduação em Formação Humana para Quadros da DST, que está agora a iniciar o IIº semestre.
Esta visão do mundo empresarial é tão diferencialmente marcante, que ela tem suscitado o interesse dos maiores órgãos de comunicação social do País. A exemplificá-lo estão os dois Programas, de ampla audiência nacional, referidos no final deste texto, e nos quais se fazem referências ao lugar da arte no mundo empresarial DST e também à experiência pedagógica que envolve presentemente a DST e a Católica, nomeadamente a sua Faculdade de Filosofia / e de Ciências Sociais. 
Pessoalmente, enquanto docente implicado nesta experiência pedagógica (durante o Iº semestre), sinto uma grande realização intelectual por ter verificado como a Turma-DST que o Eng. José Teixeira nos confiou - de economistas, engehneiros, gestores, arquitetos... - "embarcou" no rasto da pergunta, tão singela como complexa: o que pode a experiência estética fazer pela construção de uma verdadeira comunidade laboral? Naquela sala da Univ. Católica-Braga debatíamos o impulso da perceção estética,
fenomenologicamente preparada, para a transformação do nosso olhar sobre a realidade, e como essa transformação altera tudo. A começar por nós mesmos.
Dificilmente esquecerei a atitude daqueles Alunos tão especiais. De facto, o que então se passou, não foi apenas “Outra História” que a reportagem designa, mas uma “História Outra”. 
Parabéns ao Eng. José Teixeira pela sua visão ampla e profunda! As suas declarações nestes dois documentários sobre a "louca" contaminação dos saberes - da Economia à Filosofia, da Gestão de Empresas às Artes, passando pela Ciência e sempre, sempre pela Poesia - deveriam estar gravadas em todos os documentos dos agentes que interferem no espaço da Economia, a começar pelos Políticos! 
> Programa "Portugal em Direto" na RTP1 - ver sequência com início em 21:20
> "Programa Outras Histórias". Construir com Arte - ver sequência com início em 6:40
Local da reportagem das sequências: Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais - UCP - Braga / Aula de Estética. Maio. 2019.

[Carlos Morais / 2019.10.20]