quarta-feira, 25 de março de 2020

Confissões de mulheres apaixonadas... pela Filosofia!


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Interessantes testemunhos sobre o modo e o porquê do entusiasmo destas jovens mulheres pela Filosofia. 
"O pensar sobre o pensamento" fascinou a Isabel. Juntamente com a descoberta da Filosofia como esse lugar de liberdade, onde se refez das ditaduras que tanto a condicionaram.
Susana já lia Nietzsche desde os doze anos!
Luciana virou para a química, mas não pôde prescindir de questionar a natureza do átomo, da molécula... e aí entendeu que precisava de uma âncora que lhe respondesse a "algo mais" que a sua ciência, só por si, não lhe dava.
Juliana, já pressentia, como criança, juntamente com a sua beleza, a sua intrigante "diferença" no perguntar; era o insistente "porquê" que não mais a abandonaria.
Ana Cristina, também, desde muito jovem, representava o mundo e a sociedade como um grande palco, tudo encenado…  Tanta orquestração só a poderia atrair para a inevitável interrogação: o que é que isto tem de autêntico? Onde está a verdade?!
E assim a Filosofia faz mesmo caminho, encarnando nestes rostos, remexendo estas vidas. 
O sentido da religião, da política, da arte, do outro, da natureza, da razão, da finitude... e sempre, sempre, a construção da felicidade. São tantos os abraços da Filosofia!
Um conjunto de entrevistas a ver e problematizar. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Oriente e Ocidente: complementaridades religiosas em prol do ser humano

Diário do Minho, 04/12/2019, p. 16
[Texto publicado no Jornal Diário do Minho, 04.12.2019]


Passados uns bons pares de anos, surgiu-me recentemente a oportunidade de regressar à lecionação de uma das matérias da minha predileção: o pensamento oriental, na sua mescla mais genuína, feita de filosofia, religião e espiritualidade.
Nesta espécie de «regresso às origens» tive a graça de encontrar turmas motivadas pela matéria, a que não será estranha esta atração pelo Oriente da sabedoria, da meditação e do Yoga, dos Mestres iluminados, do relaxamento e da busca de cura para tanto sofrimento com que o estilo de vida ocidental nos tem esmagado…
Independentemente do assunto estar agora, segundo parece, muito na moda (sempre o considerei atual), o que é certo é que, grandes e sérios pensadores, ao longo da História, têm alertado para os riscos que emergem sempre que estas duas  metades do planeta se ignoram ou se hostilizam, em contraponto com os benefícios e vantagens provindos de uma visão holística e compreensiva das suas complementaridades, da unidade que lhes está subjacente.
Tem sido esta a linha hermenêutica que me tem guiado nos programas que tenho desenvolvido com as respetivas turmas. Partimos da ideia orientadora de que, mesmo quando se manifestam como tradições discordantes, pensamento oriental e pensamento ocidental contribuem, por isso mesmo e decisivamente, para uma visão mais completa do ser humano. Daí a importância de um conhecimento aprofundado das suas doutrinas matriciais, escolas, autores, e obras mais significativas.
A aceitação generalizada desta perspetiva interpretativa leva a que, hoje, não exista praticamente nenhuma área do conhecimento e da atividade humanas que não procure cruzar, mediante aprofundados estudos interculturais, as raízes e os legados da sabedoria oriental e da sabedoria ocidental (designação intencionalmente generalista), desde o âmbito da religião à economia, da estética à ciência, da arte à gestão, da literatura à política, etc.
Como demonstração dos benefícios deste pragmático estudo, que designo de “regime de complementaridades”, aqui deixo dois ou três exemplos que considero significativos.
O primeiro caso: um jovem estudante da Faculdade de Teologia de Braga, membro de uma Ordem Religiosa, que no ano transato integrava uma das turmas, entusiasmou-se pelo pensamento do filósofo chinês Mêncius, cuja Obra foi traduzida pelo eminente sinólogo Jesuíta, Pe. Joaquim Guerra. Este jovem encontrou nestes textos matérias, pontos de vista e orientações que lhe permitem estabelecer amplas pontes com o Cristianismo. 
O segundo caso, passou-se recentemente, no contexto da prestação de Provas de Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês, de uma jovem chinesa, na Universidade do Minho. A jovem acabava de concluir brilhantemente a defesa da sua excelente dissertação, tendo comparado o catolicismo e o protestantismo na China e em Portugal. Já em descontraído diálogo, finalizadas as formalidades académicas, perguntei-lhe em que tipo de ocupação laboral pensava ela aplicar os conhecimentos da sua tese. No meu imaginário, presumia que o leque não fosse muito além de um hipotético trabalho na área do ensino, ou numa Igreja… Pois, qual o espanto quando me responde que não, o que ela almeja é mesmo integrar, como tradutora, os quadros de uma empresa, no sector industrial, ou no comércio… Mas, e porquê esta aquisição de bagagem de cultura religiosa? Não seria muito mais adequado ter investigado doutrinas da economia, da gestão, do direito…? O mistério esclarece-se rapidamente, na graciosidade da sua pronta resposta: «sem conhecermos a estrutura religiosa dos povos, não entendemos nada do ser humano!» Eis um axioma universal, tanto lá como cá – tem toda a razão!
Finalmente, para reforço deste “regime de complementaridades”, indico duas significativas referências bibliográficas atuais.
A primeira publicação tem como autor Stephan Rothlin S.I. e intitula-se “La dottrina sociale della Chiesa in Cina, Un riferimento per l’etica degli affari” (La Civiltà Cattolica, 2019, I, nº 4046, pp. 129-140). Neste artigo é revisitado o documento A vocação do gestor - publicado pelo então Pontifício Conselho da Justiça e Paz em 2011 e recentemente traduzido para chinês - para evidenciar o papel da Doutrina Social da Igreja na construção de um quadro de referência para a ética dos negócios internacionais. Mostra, também, como esta Doutrina se pode ligar à filosofia moral confuciana, em modalidades que asseguram especificamente um melhoramento da ética comercial internacional na China.
A segunda publicação é um longo estudo de quase 400 páginas do autor Zhang Yunliang, intitulado “Lao Tzu and the Bible. Valutazione critica dell’opera di Yuan Zhiming” (Rivista Sacra Doctrina, vol. 62, fasc. 2, 2017). Como o título indica, trata-se de um profundo estudo comparado das religiões taoista e cristã, centrado na obra de Yuan Zhiming. Para além de outros aspetos, é um trabalho de grande valor para a compreensão da evangelização e da inculturação na China.
A quem interessar, estas duas publicações periódicas podem ser consultadas na Biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UCP. [Carlos Bizarro Morais]
Alunos do Seminário Temático em "Espiritualidades Orientais" - Faculdade de Teologia / Braga

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"Jorge de Sena e o Cinema": a crítica de arte de longo alcance!

CARTAZ DO COLÓQUIO INTERNACIONAL "SENA HOJE"
No dia 21 de novembro de 2019 apresentei a Comunicação intitulada “Jorge de Sena e o Cinema”, integrada no XXI Colóquio de Outono – Sena Hoje. Colóquio Internacional Comemorativo do Nascimento de Jorge de Sena.
Este Colóquio realizou-se nos dias 21 e 22 de novembro na Universidade do Minho - Braga, e foi organizado pelo Instituto de Letras e Ciências Humanas e pelo Centro de Estudos Humanísticos da mesma Universidade.
A referida Comunicação, tal como o título indica, constituiu uma excelente oportunidade para aprofundar o lugar e o significado do Cinema no itinerário do crítico de arte Jorge de Sena. Mais especificamente, tal como redigimos na síntese que integra o Livro de Resumos (pg. 28) deste Colóquio:
«Tendo como principal referência bibliográfica o volume que reúne os textos de Jorge de Sena sobre a arte do cinema, intitulado “Sobre Cinema” (Organização e introdução: Mécia de Sena, Co-organização e notas: M. S. Fonseca, Cinemateca Portuguesa, 1988), propomo-nos refletir acerca da atualidade do modo de olhar seniano sobre a imagem cinematográfica.
Valorizando toda a sua ampla paleta estilística – o ensaio, a anotação, o comentário, a analise critica – procuraremos evidenciar como Jorge de Sena abre metodologicamente os filmes à realidade do mundo, sem deixar de preservar neles mesmos a sua dimensão de mundo, enquanto verdadeiras obras de arte.
EXTRATO DO PROGRAMA OFICIAL DO COLÓQUIO
A atualidade da escrita de Jorge de Sena revelada nestes textos reside, entre outros aspetos, quanto nos, no seu rigoroso equilíbrio com que consegue observar e registar – qual analista fenomenólogo – as duas dimensões que identificam as potencialidades da imagem fílmica: a dimensão formal que faz dela uma realidade “em-si”, na sua autonomia ontológica; e a sua significação dialética que a coloca sempre em relação e faz dela um “para-nos” na sua temporalidade histórica.
Por tudo isso, consideramos que os textos da referida Obra devem ser revisitados, e Jorge de Sena deve ser revalorizado como um autêntico mestre e pedagogo do espetador de cinema, que somos todos nós.»

Palavras-chave desta Comunicação: «Jorge de Sena». «Cinema». «Critica cinematográfica». «Estética da Imagem».

sábado, 19 de outubro de 2019

DST - um Grupo Empresarial que valoriza a Filosofia e as Humanidades como molas da Produtividade!

Quantos empresários neste País facultariam aos seus quadros laborais uma formação apostada em abrir perspetivas mentais e vivenciais, muito além do círculo específico dos saberes e das competências técnicas restritas a cada tipo de trabalho? Quantos cuidariam de enriquecer o seu “pessoal”, com novas experiências de cultura humanística e de pensamento filosófico?! 
Ainda mais significativa se torna a interrogação/exclamação quando se verifica que este desejo de tornar mais "cultos"  os colaboradores da Empresa não decorre apenas de um vago sentimento de generosidade - que de si já seria verdadeiramente digno de nota - mas corresponde a um eixo estruturante da uma moderna noção de gestão  e de desenvolvimento de uma empresa que quer estar aberta ao desafio permanente da inovação. 
É assim com o Eng. José Teixeira, líder do Grupo DST. Ele sabe, pela sua prolongada experiência e hábitos de reflexão, que juntamente com o conhecimento das metodologias científicas da economia, da engenharia, da gestão e da administração, e que juntamente com o rigoroso conhecimento das novas tecnologias, há competências que provêm do âmbito específico das literacias das artes, da filosofia e das humanidades, que são absolutamente indispensáveis para a plena rentabilização dos outros saberes que fazem avançar uma Empresa. Falamos de competências diversas, como a da plasticidade de pensamento, da imaginação criativa, da ponderação do inusitado, da articulação das transversalidades, do pensamento crítico, da desarrumação do mundo e subsequente reestruturação da experiência (P. Ricouer), da inteligibilização de determinados valores (como o bem, a justiça, o equilíbrio, o belo), competências argumentativas e comportamentais que se congregam na holística tarefa de CONSTRUIR UM ESTILO, e que por isso são consideradas como condimentos indispensáveis para a verdadeira PRODUTIVIDADE de uma Empresa aberta ao futuro.
Foi esta forte convicção que levou o Chairman e CEO do Grupo DST a desafiar a Católica a criar uma Pós-Graduação em Formação Humana para Quadros da DST, que está agora a iniciar o IIº semestre.
Esta visão do mundo empresarial é tão diferencialmente marcante, que ela tem suscitado o interesse dos maiores órgãos de comunicação social do País. A exemplificá-lo estão os dois Programas, de ampla audiência nacional, referidos no final deste texto, e nos quais se fazem referências ao lugar da arte no mundo empresarial DST e também à experiência pedagógica que envolve presentemente a DST e a Católica, nomeadamente a sua Faculdade de Filosofia / e de Ciências Sociais. 
Pessoalmente, enquanto docente implicado nesta experiência pedagógica (durante o Iº semestre), sinto uma grande realização intelectual por ter verificado como a Turma-DST que o Eng. José Teixeira nos confiou - de economistas, engehneiros, gestores, arquitetos... - "embarcou" no rasto da pergunta, tão singela como complexa: o que pode a experiência estética fazer pela construção de uma verdadeira comunidade laboral? Naquela sala da Univ. Católica-Braga debatíamos o impulso da perceção estética,
fenomenologicamente preparada, para a transformação do nosso olhar sobre a realidade, e como essa transformação altera tudo. A começar por nós mesmos.
Dificilmente esquecerei a atitude daqueles Alunos tão especiais. De facto, o que então se passou, não foi apenas “Outra História” que a reportagem designa, mas uma “História Outra”. 
Parabéns ao Eng. José Teixeira pela sua visão ampla e profunda! As suas declarações nestes dois documentários sobre a "louca" contaminação dos saberes - da Economia à Filosofia, da Gestão de Empresas às Artes, passando pela Ciência e sempre, sempre pela Poesia - deveriam estar gravadas em todos os documentos dos agentes que interferem no espaço da Economia, a começar pelos Políticos! 
> Programa "Portugal em Direto" na RTP1 - ver sequência com início em 21:20
> "Programa Outras Histórias". Construir com Arte - ver sequência com início em 6:40
Local da reportagem das sequências: Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais - UCP - Braga / Aula de Estética. Maio. 2019.

[Carlos Morais / 2019.10.20]

domingo, 2 de junho de 2019

José Mattoso: Igreja e Cultura, Fé e Razão, Tradição e Criatividade, História e Atualidade:

Igreja e Cultura, Fé e Razão, Tradição e Criatividade, História e Atualidade: reflexões de José Mattoso, a ter bem em conta nos tempos de hoje.
Após receber o prémio «Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes», o investigador referiu que, nos séculos XIX e XX, a Igreja Católica em Portugal se refugiou “à sombra do poder constituído” – “enfraquecida pela perda dos seus bens e pela debilidade do seu pensamento racional, perdeu o sentido da criatividade cultural” – mas, hoje, pela reflexão teológica, à crítica exegética e ao verdadeiro conhecimento do passado, “recuperou o seu lugar no mundo da ciência e da razão”.

domingo, 30 de dezembro de 2018

A crise da palavra e as Categorias de Aristóteles

  • Neste apontamento procuramos mostrar que a crise atual da palavra não está desligada do modo como concebemos e interpretamos os conceitos/termos básicos da linguagem. Daí a necessidade de regressarmos à doutrina aristotélica das Categorias, um texto fundamental para a Lógica.
  • O apontamento foi publicado no Jornal "Diário do Minho" (Braga), em 26.12.2018, p. 16. Mas está também disponível (em livre acesso) na edição digital - clique aqui
  • Relacionado com o mesmo assunto, recomendamos, também, a leitura do "Prefácio" ao fascículo 3 (2018) da Revista Les Études Philosophiques, com tradução e adaptação feita por nós. 
  • Foi a publicação deste fascículo que deu o mote ao nosso apontamento.

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"CATEGORIAS DA LÍNGUA, CATEGORIAS DO SER" / "PREFÁCIO"
Kristell Trego. 
“Catégories de langue, catégories de l’être” - “Avant-Propos” 
in Les Études philosophiques, 2018, 3, pp. 337-338
(trad.e adaptação de Carlos B Morais)
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[337] Se as categorias são modos de predicação, não corresponderão elas à estrutura do discurso, bem longe de se conformarem à ordem do real? Um tal questionamento foi certamente muito vivo, quando, no séc. XIX, Adolf Trendelenburg sustentou que as categorias retomavam distinções gramaticais, mas que visavam também conteúdos conceptuais. Desde a sua lição inaugural, (…) convida a ultrapassar a origem gramatical das categorias, para reconhecer a maneira como elas se referem à própria natureza das noções. Conhece-se o debate que o oporá a H. Bonitz. O séc. XX recebeu a herança. No seu artigo «Catégories de pensée et catégories de langue», inicialmente publicado há 60 anos na revista Etudes philosophiques (1958), E. Benveniste retomou a questão para afirmar: «Na medida em que as categorias de Aristóteles se reconhecem válidas para o pensamento, revelam-se como a transposição das categorias de língua. É o que se pode dizer que delimita e organiza o que se pode pensar» (Problèmes de linguistique générale, Paris, Gallimard, 1966, p. 70).
Tal como Kant não foi o primeiro a procurar uma ordem das categorias (contra o seu pretendido carácter rapsódico), a questão das relações das categorias à língua, ao pensamento, mas também ao real, não nasceu com Trendelenburg. Uma tal questão ritma a história da receção das categorias. A exegese neoplatónica grega fornece a moldura: as categorias serão palavras, conceitos, ou coisas? Não é necessário enfatizar uma resposta, em detrimento das outras: as categorias não seriam de facto, como nos convida a pensar Simplício, palavras significando conceitos, e remetendo a coisas? 
O presente caderno pretende esclarecer a tese de Trendelenburg, retomando uma certa história das categorias que aí vê uma fala (une parole) sobre o ser. Mais do que [338] uma alternativa entre categorias da língua e categorias do pensamento, as categorias confronta-nos, para além das palavras que as dizem, com uma certa maneira de perspetivar o real. As contribuições que vamos ler propõem examinar a maneira como as categorias não se deixaram reduzir à determinação linguística que as viu nascer. Atentos à linguagem na qual se dizem as categorias, os autores (dos trabalhos deste caderno) encontraram-se confrontados com o problema da língua das categorias. As categorias aristotélicas, assim traduzidas em diversas línguas e de diversas maneiras, não se poderiam deixar restringir à língua grega que as viu nascer. O seu confronto com a gramática conduziu de facto a exibir uma dimensão inteligível das categorias, irredutível a factos da linguagem.
Num quadro teológico, ou na juntura da lógica e da metafísica, a doutrina das categorias viu-se retomada para apreender o que é nas suas diferentes facetas. Veremos em Bizâncio Photius servir-se das categorias para pensar a predicação da humanidade a tal homem singular, tal como [a predicação] da divindade a Deus. Examinaremos, no território do Islão, a retoma de um questionamento neoplatónico acerca da simplicidade ou composição das dez categorias. Descobriremos igualmente um reinvestimento da doutrina das categorias promovendo o conceito de «coisa» para apreender o que é. Perspetivaremos, em terra latina, uma reflexão sobre a dimensão lógica ou metafísica da ciência categorial. Prestaremos atenção, na Inglaterra do séc. XVIII, à retoma de um questionamento categorial para combater o inatismo de Locke e afirmar a atividade do espírito. Consideraremos de seguida as múltiplas maneiras propostas por Brentano para pensar as categorias e constituir uma ontologia. Regressaremos a Trendelenburg e olharemos para a leitura que ele efetuou em 1846 do questionamento iniciado na sua lição inaugural, sobre a programação das categorias.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

"A Imaginação ao Poder"?

Cartaz do Colóquio
Nos dias 12 e 13 de novembro de 2018 realizou-se, na Universidade do Minho (Braga), a XXª Edição do Colóquio de Outono, Conferência Internacional, dedicada ao tema "Paz e Liberdade. Visões, Discursos, Manipulações" ("Peace and Freedom. Visions, Discourses, Manipulation").
No âmbito deste evento, tive a grata oportunidade de apresentar uma Comunicação, intitulada "A imaginação ao poder"?, na qual pretendi questionar até que ponto a imaginação, à luz da análise estética, é a faculdade mais bem posicionada para lidar o poder, como se podia ler no slogan programático dos revolucionários de Maio de 68, em Paris.
Após a apresentação da Comunicação, seguiu-se, como é habitual, um breve mas enriquecedor diálogo com os participantes.

A quem interessar, aqui fica o resumo da intervenção.

RESUMO:
Ainda que não seja um dado suficientemente conhecido e divulgado, o filósofo Mikel Dufrenne teve com os acontecimentos parisienses de maio de 68, uma relação verdadeiramente sintomática, e por isso mesmo, complexa, quer do ponto de vista ideológico, como sobretudo – que é o que aqui nos interessa – do ponto de vista estético e filosófico. Nesta comunicação pretendemos focar um ângulo dessa complexidade, mostrando que, por um lado, o ambiente cultural então vivido abriu a sua reflexão estética para a compreensão da dimensão social e política da arte e da experiência estética, de um modo como ainda o não tinha conseguido nas obras dos anos 50. Mas, por outro lado, precisamente porque se tratava de refundar o alcance produtivo e revolucionário da arte na realidade envolvente, a categoria catalisadora não poderia centrar-se na "imaginação", por muito importante que esta faculdade mental se revelasse, e que a notada expressão “A imaginação ao poder” pretendia endeusar. Não temos conhecimento de que Mikel Dufrenne tenha contestado diretamente aquele slogan, mas as suas reticências à sobrevalorização do estatuto e do papel da "imaginação" são deveras importantes, dado que nos permitem inferir critérios hermenêuticos de avaliação da relação da arte com o poder, da estética com a política. É também uma outra maneira de revisitarmos os fundamentos da potência subversiva – neste sentido revolucionária – da arte. Daí a eleição da obra estética de Mikel Dufrenne nesta comunicação. 

in: "Livro de Resumos"
Programa do Colóquio 

CEHUM-ILCH - Universidade do Minho, Braga, 12 de novembro de 2018