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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Pedagogia estética da hospitalidade

 Pode a Experiência Estética conduzir-nos à Hospitalidade?

"Elementos para uma pedagogia estética da hospitalidade" - assim poderia ser o título deste esboço de reflexão, passe a imodéstia da paráfrase.

A quem interessar, cf. intervenção no VII Simpósio Luso-Brasileiro de Estudos de Religião, em 27 jan. 2021 [vídeo a partir de 29:15 + discussão no final]


sábado, 19 de outubro de 2019

DST - um Grupo Empresarial que valoriza a Filosofia e as Humanidades como molas da Produtividade!

Quantos empresários neste País facultariam aos seus quadros laborais uma formação apostada em abrir perspetivas mentais e vivenciais, muito além do círculo específico dos saberes e das competências técnicas restritas a cada tipo de trabalho? Quantos cuidariam de enriquecer o seu “pessoal”, com novas experiências de cultura humanística e de pensamento filosófico?! 
Ainda mais significativa se torna a interrogação/exclamação quando se verifica que este desejo de tornar mais "cultos"  os colaboradores da Empresa não decorre apenas de um vago sentimento de generosidade - que de si já seria verdadeiramente digno de nota - mas corresponde a um eixo estruturante da uma moderna noção de gestão  e de desenvolvimento de uma empresa que quer estar aberta ao desafio permanente da inovação. 
É assim com o Eng. José Teixeira, líder do Grupo DST. Ele sabe, pela sua prolongada experiência e hábitos de reflexão, que juntamente com o conhecimento das metodologias científicas da economia, da engenharia, da gestão e da administração, e que juntamente com o rigoroso conhecimento das novas tecnologias, há competências que provêm do âmbito específico das literacias das artes, da filosofia e das humanidades, que são absolutamente indispensáveis para a plena rentabilização dos outros saberes que fazem avançar uma Empresa. Falamos de competências diversas, como a da plasticidade de pensamento, da imaginação criativa, da ponderação do inusitado, da articulação das transversalidades, do pensamento crítico, da desarrumação do mundo e subsequente reestruturação da experiência (P. Ricouer), da inteligibilização de determinados valores (como o bem, a justiça, o equilíbrio, o belo), competências argumentativas e comportamentais que se congregam na holística tarefa de CONSTRUIR UM ESTILO, e que por isso são consideradas como condimentos indispensáveis para a verdadeira PRODUTIVIDADE de uma Empresa aberta ao futuro.
Foi esta forte convicção que levou o Chairman e CEO do Grupo DST a desafiar a Católica a criar uma Pós-Graduação em Formação Humana para Quadros da DST, que está agora a iniciar o IIº semestre.
Esta visão do mundo empresarial é tão diferencialmente marcante, que ela tem suscitado o interesse dos maiores órgãos de comunicação social do País. A exemplificá-lo estão os dois Programas, de ampla audiência nacional, referidos no final deste texto, e nos quais se fazem referências ao lugar da arte no mundo empresarial DST e também à experiência pedagógica que envolve presentemente a DST e a Católica, nomeadamente a sua Faculdade de Filosofia / e de Ciências Sociais. 
Pessoalmente, enquanto docente implicado nesta experiência pedagógica (durante o Iº semestre), sinto uma grande realização intelectual por ter verificado como a Turma-DST que o Eng. José Teixeira nos confiou - de economistas, engehneiros, gestores, arquitetos... - "embarcou" no rasto da pergunta, tão singela como complexa: o que pode a experiência estética fazer pela construção de uma verdadeira comunidade laboral? Naquela sala da Univ. Católica-Braga debatíamos o impulso da perceção estética,
fenomenologicamente preparada, para a transformação do nosso olhar sobre a realidade, e como essa transformação altera tudo. A começar por nós mesmos.
Dificilmente esquecerei a atitude daqueles Alunos tão especiais. De facto, o que então se passou, não foi apenas “Outra História” que a reportagem designa, mas uma “História Outra”. 
Parabéns ao Eng. José Teixeira pela sua visão ampla e profunda! As suas declarações nestes dois documentários sobre a "louca" contaminação dos saberes - da Economia à Filosofia, da Gestão de Empresas às Artes, passando pela Ciência e sempre, sempre pela Poesia - deveriam estar gravadas em todos os documentos dos agentes que interferem no espaço da Economia, a começar pelos Políticos! 
> Programa "Portugal em Direto" na RTP1 - ver sequência com início em 21:20
> "Programa Outras Histórias". Construir com Arte - ver sequência com início em 6:40
Local da reportagem das sequências: Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais - UCP - Braga / Aula de Estética. Maio. 2019.

[Carlos Morais / 2019.10.20]

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

"A Imaginação ao Poder"?

Cartaz do Colóquio
Nos dias 12 e 13 de novembro de 2018 realizou-se, na Universidade do Minho (Braga), a XXª Edição do Colóquio de Outono, Conferência Internacional, dedicada ao tema "Paz e Liberdade. Visões, Discursos, Manipulações" ("Peace and Freedom. Visions, Discourses, Manipulation").
No âmbito deste evento, tive a grata oportunidade de apresentar uma Comunicação, intitulada "A imaginação ao poder"?, na qual pretendi questionar até que ponto a imaginação, à luz da análise estética, é a faculdade mais bem posicionada para lidar o poder, como se podia ler no slogan programático dos revolucionários de Maio de 68, em Paris.
Após a apresentação da Comunicação, seguiu-se, como é habitual, um breve mas enriquecedor diálogo com os participantes.

A quem interessar, aqui fica o resumo da intervenção.

RESUMO:
Ainda que não seja um dado suficientemente conhecido e divulgado, o filósofo Mikel Dufrenne teve com os acontecimentos parisienses de maio de 68, uma relação verdadeiramente sintomática, e por isso mesmo, complexa, quer do ponto de vista ideológico, como sobretudo – que é o que aqui nos interessa – do ponto de vista estético e filosófico. Nesta comunicação pretendemos focar um ângulo dessa complexidade, mostrando que, por um lado, o ambiente cultural então vivido abriu a sua reflexão estética para a compreensão da dimensão social e política da arte e da experiência estética, de um modo como ainda o não tinha conseguido nas obras dos anos 50. Mas, por outro lado, precisamente porque se tratava de refundar o alcance produtivo e revolucionário da arte na realidade envolvente, a categoria catalisadora não poderia centrar-se na "imaginação", por muito importante que esta faculdade mental se revelasse, e que a notada expressão “A imaginação ao poder” pretendia endeusar. Não temos conhecimento de que Mikel Dufrenne tenha contestado diretamente aquele slogan, mas as suas reticências à sobrevalorização do estatuto e do papel da "imaginação" são deveras importantes, dado que nos permitem inferir critérios hermenêuticos de avaliação da relação da arte com o poder, da estética com a política. É também uma outra maneira de revisitarmos os fundamentos da potência subversiva – neste sentido revolucionária – da arte. Daí a eleição da obra estética de Mikel Dufrenne nesta comunicação. 

in: "Livro de Resumos"
Programa do Colóquio 

CEHUM-ILCH - Universidade do Minho, Braga, 12 de novembro de 2018

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O virtual e a experiência estética - tema de comunicação (Congresso da SPF na UBI)

No passado dia 07 de setembro tive a honra de participar no 3º Congresso Internacional de Filosofia, organizado pela Sociedade Portuguesa de Filosofia (SPF), realizado na prestigiada Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã. Mais concretamente, moderei a Sessão temática Fenomenologia e Epistemologia V, participei na Mesa-Debate: Atualidade e Futuro da investigação em Filosofia em Portugal, com os representantes dos Centros de Investigação Filosófica Portugueses. E apresentei a comunicação intitulada: O virtual como categoria da experiência estética, à qual se seguiu, como é habitual, um momento de questionamento e de diálogo com a assistência, dele resultando um enriquecimento pessoal, a nível de ideias e de perspetivas de aprofundamento do assunto em investigação.
Mesa-Redonda com os representantes
dos Centros de Investigação Filosófica Portugueses
Quero expressar, naturalmente, a minha gratidão pela oportunidade de integrar este evento científico, ocorrido na Universidade da nossa Cidade.
Pelo que pude observar, foi um Congresso de grande impacto para o reforço da afirmação e da presença da Filosofia no nosso meio cultural e especificamente na Universidade da Beira Interior. A dimensão nacional e internacional deste Congresso, bem como o facto de ter acolhido comunicações em todas as áreas significativas dos estudos filosóficos, garantirão a este Congresso um lugar privilegiado no conjunto dos eventos filosóficos realizados no nosso País.
Estão, pois, de parabéns, as entidades organizadoras deste Congresso, excelentemente representadas pelos Professores André Barata (UBI, Coordenador) e José Meirinhos (Presidente da Direção da SPF).
Não posso deixar de realçar aquele traço afável e singelo que distingue o modus faciendi do acolhimento beirão, tão elegantemente espraiado em toda a organização-UBI.

Para as pessoas interessadas no tema que apresentei, aqui fica o Resumo.

O virtual como categoria da experiência estética Um dos aspetos que consideramos verdadeiramente marcantes da estética filosófica de Mikel Dufrenne é a sua elaboração de uma teoria pioneira sobre a categoria do virtual, nomeadamente a análise das suas incidências fenomenológicas na perceção estética e na constituição do objeto estético. A sua sistematização inicia-se com Phénoménologie de l’Expérience Esthétique (1953), percorrendo todos os seus trabalhos publicados ao longo da segunda metade do séc. XX, até L'oeil et l’oreille (1987), sua última obra onde a categoria do virtual ocupa um lugar de destaque.
À distância de pouco mais de vinte anos do seu falecimento (1910-1995), é oportuno iniciar uma avaliação crítica do alcance do contributo deste autor para o tema em análise, pelo menos sob dois ângulos de perspetiva que consideramos prioritários. Em primeiro lugar, quanto à competência e adequação do manuseamento da fenomenologia como teoria integrativa da categoria do virtual no fenómeno estético. Em segundo lugar, quanto à perspicácia de, como que premonitoriamente, Mikel Dufrenne ter antecipado um instrumento de análise das artes que, desde o último quartel do século passado, se vêm desenvolvendo precisamente sob a égide da categoria do virtual; se fosse necessário justificar a atualidade do tema, bastaria notar a importância da noção de virtual, não apenas na ciência e na técnica, mas no espaço social, comunicacional, estético e afetivo. Em pouco tempo, instalámo-nos na cultura do virtual, que investe e condiciona positiva e negativamente a experiência vivida e a própria constituição dos objetos.
O que hoje se passa no campo da criação artística, na produção e consumo de imagens digitais e de formas virtuais confere à estética um lugar privilegiado para observar, compreender e avaliar a relação do virtual com a realidade, e mais globalmente, a virtualização do mundo. No fundo, a pergunta pela realidade é sempre a que mais nos incomoda, pois é cada vez menos precisa e nítida a moldura disso a que chamamos “real”, o seu contorno, a sua identidade, a sua natureza, a sua afinidade. É muito sintomático que passe a ser mais convidativa a experiência imersiva na realidade virtual do que a contemplação da natureza!
Mikel Dufrenne pressentiu, com muita acuidade, que o problema do “novo” virtual exigia transvasar a doutrina filosófica, clássica, da dualidade «potência|acto».
É em ordem a esta tarefa de avaliação crítica, centrada nos dois objetivos enunciados que planeamos a nossa comunicação.

In: Programa e Livro de Resumos, [3º Congresso Internacional de Filosofia, SPF], UBI: Covilhã, pp. 58-59. URL: https://www.spfil.pt/files/files/programa_resumos_3cispf.pdf 

sábado, 6 de janeiro de 2018

Conceitos Estéticos // "Da Radicalidade da Experiência Estética"

Acaba de ser publicada (dezembro/2017) a obra “CONCEITOS ESTÉTICOS / CONCEPTOS
ESTÉTICOS”, resultante do II Encontro Ibérico de Estética, organizada pelos professores María José Alcaraz Léon e Vítor Moura, publicada pela Editora Húmus. 
Os Conceitos estéticos, bem como os diferentes problemas relacionados com a natureza da arte desenvolvidos pelos diversos autores estão agrupados em quatro secções: 
- O que é a arte?
- Arte Contemporânea e experiência estética;
- Sujeito da apreciação e sensibilização estética;
- Tempo e memória através da arte.
Tive a honra de colaborar nesta Obra com o estudo intitulado “Da radicalidade da experiência estética” cujo Resumo transcrevo

Este trabalho tem como objetivo relançar o questionamento da experiência estética no seu horizonte de radicalidade. Pretende problematizá-la desde o seu referencial empírico até à inquirição do seu fundamento, legitimando a possibilidade de um “limiar” de transcendência, ou seja, de abertura ao absoluto, a uma “ultimidade” de sentido, ao Ser, arrimada numa verdadeira âncora ontológica e metafísica. A instrumentação metodológica que sustenta a análise e a argumentação pertence à fenomenologia existencial, enquanto articulada com o pensamento hermenêutico e a reflexão ontológica. Pensamos que este aprofundamento se justifica totalmente. É mesmo uma tarefa inadiável trazer de volta ao debate filosófico uma conceção fundacio­nal da experiência da arte e da vivência da beleza, tendo presente o contexto civilizacional no qual estamos mergulhados, enclausurado num relativismo neo-sofistico que invade e mina os alicerces da arte, os critérios do gosto, a essência da beleza, o ideal da formação estética.
Porém, se procuramos abrir uma brecha que nos permita refazer uma noção de experiência estética que tenha condições de progressão desde a feno­menologia para a ontologia e para a metafísica, fazemo-lo na plena preocu­pação de evitar a queda no esquema desgastado de pensar “a partir de cima”. Por isso compreende-se que esta reflexão se nutra do conceito de aisthêsis. A renovação deste conceito, forjado pelos gregos, oferece amplas perspetivas de resposta à estética idealista e normativa que a tradição nos legou, ao mesmo tempo que nos situa perante o fenómeno matricial do qual o pensamento de determinados autores, entre os quais pontua Mikel Dufrenne, jamais se afas­tará – o fenómeno do sentir. Pensar o sentir como fenómeno estético – como experiência estética – significa certamente conetá-lo com os objetos onde ela melhor de concretiza, chamemos-lhes, objetos belos, ou artísticos. Mas significa sobretudo, auscultar a instância, o solo no qual essa experiência lança as suas raízes, e que exigirá a dimensão ontológica e metafísica do “vivido”. “Vivido” que se caracteriza por uma dimensão de abertura que acompanha todas as fases da sua “experienciação”, tornando-a irredutível a qualquer categoria ou parâmetro de análise positivista. Este aspeto é, para nós, a prova de que só a chave interpretativa ontológica e metafísica responde em definitivo, filosofica­mente, ao sentido vivido no interior da experiência estética. É nessa linha que nos propomos, também, construir uma hipótese de leitura do pensamento de Mikel Dufrenne, cuja Obra aqui nos acompanha, ainda que submetendo-a a uma interpretação crítica.
Lancemos, pois, esta arriscada convicção: estamos persuadidos de que a mais decisiva significação para a qual aponta uma sólida estética fenomeno­lógica que pense a experiência da arte e da beleza, já não é a que determina o sentido do Ser através da Natureza, ou do Signo, ou da Linguagem, ou do Desejo, ou do Inconsciente, ou da Estrutura, mas a que projeta ou perspetiva um fundamento ontológico para a própria ideia de Natureza, de Signo, de Linguagem, de Desejo, de Inconsciente, de Estrutura através do Ser: o sentido em cujo desvendamento a estética fenomenológica participa é, em última instância, o sentido do Ser. É na posse da intuição deste “sentido ou direção” que havemos de encontrar a bússola orientadora tão necessária nos labirintos da cultura estética e artística de hoje.

> O índice dos artigos desta obra pode ser consultado aqui.