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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Duchamp e Heidegger: quando a coisa se tornou obra de arte

Massimo Carboni, entrevistado no Festival da Filosofia de Modena de 2017 ("As formas do criar"), fala da estética contemporânea. Refere-se a Benedetto Croce como sendo um dos grandes mestres da Estética do Séc. XX, mas de quem não se extraem, imediatamente, grandes instrumentos de análise para a arte de hoje. Já Walter Benjamin, com A Obra de Arte na Época da sua Reprodutibilidade Técnica (1934-36), se devidamente contextualizado -  considera Carboni - é um instrumento fundamental para compreender a arte medial e até mesmo as instalações interativas, em suma, as obras de arte atuais. Relativamente a Martin Heidegger, a opinião de Carboni, é a de que não foi um construtor de uma estética filosófica cujo discurso se amplie; aliás, no seu estudo A origem da Obra de Arte (também de 1934-36), Heidegger distingue entre a coisa e  a obra, entre a coisidade da coisa e obra de arte. Ora, mais de vinte anos antes (em 1913) Marcel Duchamp, pelo contrário, tinha feito de uma coisa uma obra de arte, demonstrando, naquele aspeto específico, que a estética heideggeriana estava já naquele momento superada e que não é mais possível fazer a distinção entre coisa e obra.

Massimo Carboni ensina Estética na Università della Tuscia di Viterbo e na Accademia di Belle Arti di Firenze. Historiador, crítico de arte e teorizador da estética, tem-se ocupado de questões filosóficas que intercetam a pluralidade das expressões artísticas, o estatuto das técnicas e a raiz antropológica das expressões.

Da sua bibliografia:

- L’occhio e la pagina. Tra immagine e parola (Milano 2002);

- Lo stato dell’arte. L’esperienza estetica nell’èra della tecnica (con P. Montani, Roma-Bari 2005);

- La mosca di Dreyer. L’opera della contingenza nelle arti (Milano 2007);

- Di più di tutto. Figure dell’eccesso (Roma 2009);

- Le arti e la tecnica: gli scenari futuri, in Terzo Millennio (Enciclopedia Italiana Treccani, 2010).

in RAI-CULTURA (texto adaptado) 

Ver extrato da entrevista

domingo, 22 de novembro de 2020

Arte Contemporânea e Estética do Essencial

Intervenção na 5ª Sessão da Xª Jornada de Teologia Prática, dedicada ao tema: "O Apelo do Essencial", com a comunicação "Arte Contemporânea  e Estética do Essencial".
Esta Sessão, lançada online no passado dia 05 de novembro, contou, também, com a participação do Colega Joaquim Félix de Carvalho, Professor da Faculdade de Teologia; foi moderada pela Professora Clarisse Pessôa (FFCS-UCP) e teve como anfitrião o Professor Luís Figueiredo Rodrigues (Diretor da FT-Braga).
A organização da Jornada foi da responsabilidade da Faculdade de Teologia da UCP.



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"Jorge de Sena e o Cinema": a crítica de arte de longo alcance!

CARTAZ DO COLÓQUIO INTERNACIONAL "SENA HOJE"
No dia 21 de novembro de 2019 apresentei a Comunicação intitulada “Jorge de Sena e o Cinema”, integrada no XXI Colóquio de Outono – Sena Hoje. Colóquio Internacional Comemorativo do Nascimento de Jorge de Sena.
Este Colóquio realizou-se nos dias 21 e 22 de novembro na Universidade do Minho - Braga, e foi organizado pelo Instituto de Letras e Ciências Humanas e pelo Centro de Estudos Humanísticos da mesma Universidade.
A referida Comunicação, tal como o título indica, constituiu uma excelente oportunidade para aprofundar o lugar e o significado do Cinema no itinerário do crítico de arte Jorge de Sena. Mais especificamente, tal como redigimos na síntese que integra o Livro de Resumos (pg. 28) deste Colóquio:
«Tendo como principal referência bibliográfica o volume que reúne os textos de Jorge de Sena sobre a arte do cinema, intitulado “Sobre Cinema” (Organização e introdução: Mécia de Sena, Co-organização e notas: M. S. Fonseca, Cinemateca Portuguesa, 1988), propomo-nos refletir acerca da atualidade do modo de olhar seniano sobre a imagem cinematográfica.
Valorizando toda a sua ampla paleta estilística – o ensaio, a anotação, o comentário, a analise critica – procuraremos evidenciar como Jorge de Sena abre metodologicamente os filmes à realidade do mundo, sem deixar de preservar neles mesmos a sua dimensão de mundo, enquanto verdadeiras obras de arte.
EXTRATO DO PROGRAMA OFICIAL DO COLÓQUIO
A atualidade da escrita de Jorge de Sena revelada nestes textos reside, entre outros aspetos, quanto nos, no seu rigoroso equilíbrio com que consegue observar e registar – qual analista fenomenólogo – as duas dimensões que identificam as potencialidades da imagem fílmica: a dimensão formal que faz dela uma realidade “em-si”, na sua autonomia ontológica; e a sua significação dialética que a coloca sempre em relação e faz dela um “para-nos” na sua temporalidade histórica.
Por tudo isso, consideramos que os textos da referida Obra devem ser revisitados, e Jorge de Sena deve ser revalorizado como um autêntico mestre e pedagogo do espetador de cinema, que somos todos nós.»

Palavras-chave desta Comunicação: «Jorge de Sena». «Cinema». «Critica cinematográfica». «Estética da Imagem».

sábado, 19 de outubro de 2019

DST - um Grupo Empresarial que valoriza a Filosofia e as Humanidades como molas da Produtividade!

Quantos empresários neste País facultariam aos seus quadros laborais uma formação apostada em abrir perspetivas mentais e vivenciais, muito além do círculo específico dos saberes e das competências técnicas restritas a cada tipo de trabalho? Quantos cuidariam de enriquecer o seu “pessoal”, com novas experiências de cultura humanística e de pensamento filosófico?! 
Ainda mais significativa se torna a interrogação/exclamação quando se verifica que este desejo de tornar mais "cultos"  os colaboradores da Empresa não decorre apenas de um vago sentimento de generosidade - que de si já seria verdadeiramente digno de nota - mas corresponde a um eixo estruturante da uma moderna noção de gestão  e de desenvolvimento de uma empresa que quer estar aberta ao desafio permanente da inovação. 
É assim com o Eng. José Teixeira, líder do Grupo DST. Ele sabe, pela sua prolongada experiência e hábitos de reflexão, que juntamente com o conhecimento das metodologias científicas da economia, da engenharia, da gestão e da administração, e que juntamente com o rigoroso conhecimento das novas tecnologias, há competências que provêm do âmbito específico das literacias das artes, da filosofia e das humanidades, que são absolutamente indispensáveis para a plena rentabilização dos outros saberes que fazem avançar uma Empresa. Falamos de competências diversas, como a da plasticidade de pensamento, da imaginação criativa, da ponderação do inusitado, da articulação das transversalidades, do pensamento crítico, da desarrumação do mundo e subsequente reestruturação da experiência (P. Ricouer), da inteligibilização de determinados valores (como o bem, a justiça, o equilíbrio, o belo), competências argumentativas e comportamentais que se congregam na holística tarefa de CONSTRUIR UM ESTILO, e que por isso são consideradas como condimentos indispensáveis para a verdadeira PRODUTIVIDADE de uma Empresa aberta ao futuro.
Foi esta forte convicção que levou o Chairman e CEO do Grupo DST a desafiar a Católica a criar uma Pós-Graduação em Formação Humana para Quadros da DST, que está agora a iniciar o IIº semestre.
Esta visão do mundo empresarial é tão diferencialmente marcante, que ela tem suscitado o interesse dos maiores órgãos de comunicação social do País. A exemplificá-lo estão os dois Programas, de ampla audiência nacional, referidos no final deste texto, e nos quais se fazem referências ao lugar da arte no mundo empresarial DST e também à experiência pedagógica que envolve presentemente a DST e a Católica, nomeadamente a sua Faculdade de Filosofia / e de Ciências Sociais. 
Pessoalmente, enquanto docente implicado nesta experiência pedagógica (durante o Iº semestre), sinto uma grande realização intelectual por ter verificado como a Turma-DST que o Eng. José Teixeira nos confiou - de economistas, engehneiros, gestores, arquitetos... - "embarcou" no rasto da pergunta, tão singela como complexa: o que pode a experiência estética fazer pela construção de uma verdadeira comunidade laboral? Naquela sala da Univ. Católica-Braga debatíamos o impulso da perceção estética,
fenomenologicamente preparada, para a transformação do nosso olhar sobre a realidade, e como essa transformação altera tudo. A começar por nós mesmos.
Dificilmente esquecerei a atitude daqueles Alunos tão especiais. De facto, o que então se passou, não foi apenas “Outra História” que a reportagem designa, mas uma “História Outra”. 
Parabéns ao Eng. José Teixeira pela sua visão ampla e profunda! As suas declarações nestes dois documentários sobre a "louca" contaminação dos saberes - da Economia à Filosofia, da Gestão de Empresas às Artes, passando pela Ciência e sempre, sempre pela Poesia - deveriam estar gravadas em todos os documentos dos agentes que interferem no espaço da Economia, a começar pelos Políticos! 
> Programa "Portugal em Direto" na RTP1 - ver sequência com início em 21:20
> "Programa Outras Histórias". Construir com Arte - ver sequência com início em 6:40
Local da reportagem das sequências: Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais - UCP - Braga / Aula de Estética. Maio. 2019.

[Carlos Morais / 2019.10.20]

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

"A Imaginação ao Poder"?

Cartaz do Colóquio
Nos dias 12 e 13 de novembro de 2018 realizou-se, na Universidade do Minho (Braga), a XXª Edição do Colóquio de Outono, Conferência Internacional, dedicada ao tema "Paz e Liberdade. Visões, Discursos, Manipulações" ("Peace and Freedom. Visions, Discourses, Manipulation").
No âmbito deste evento, tive a grata oportunidade de apresentar uma Comunicação, intitulada "A imaginação ao poder"?, na qual pretendi questionar até que ponto a imaginação, à luz da análise estética, é a faculdade mais bem posicionada para lidar o poder, como se podia ler no slogan programático dos revolucionários de Maio de 68, em Paris.
Após a apresentação da Comunicação, seguiu-se, como é habitual, um breve mas enriquecedor diálogo com os participantes.

A quem interessar, aqui fica o resumo da intervenção.

RESUMO:
Ainda que não seja um dado suficientemente conhecido e divulgado, o filósofo Mikel Dufrenne teve com os acontecimentos parisienses de maio de 68, uma relação verdadeiramente sintomática, e por isso mesmo, complexa, quer do ponto de vista ideológico, como sobretudo – que é o que aqui nos interessa – do ponto de vista estético e filosófico. Nesta comunicação pretendemos focar um ângulo dessa complexidade, mostrando que, por um lado, o ambiente cultural então vivido abriu a sua reflexão estética para a compreensão da dimensão social e política da arte e da experiência estética, de um modo como ainda o não tinha conseguido nas obras dos anos 50. Mas, por outro lado, precisamente porque se tratava de refundar o alcance produtivo e revolucionário da arte na realidade envolvente, a categoria catalisadora não poderia centrar-se na "imaginação", por muito importante que esta faculdade mental se revelasse, e que a notada expressão “A imaginação ao poder” pretendia endeusar. Não temos conhecimento de que Mikel Dufrenne tenha contestado diretamente aquele slogan, mas as suas reticências à sobrevalorização do estatuto e do papel da "imaginação" são deveras importantes, dado que nos permitem inferir critérios hermenêuticos de avaliação da relação da arte com o poder, da estética com a política. É também uma outra maneira de revisitarmos os fundamentos da potência subversiva – neste sentido revolucionária – da arte. Daí a eleição da obra estética de Mikel Dufrenne nesta comunicação. 

in: "Livro de Resumos"
Programa do Colóquio 

CEHUM-ILCH - Universidade do Minho, Braga, 12 de novembro de 2018

sábado, 6 de janeiro de 2018

Conceitos Estéticos // "Da Radicalidade da Experiência Estética"

Acaba de ser publicada (dezembro/2017) a obra “CONCEITOS ESTÉTICOS / CONCEPTOS
ESTÉTICOS”, resultante do II Encontro Ibérico de Estética, organizada pelos professores María José Alcaraz Léon e Vítor Moura, publicada pela Editora Húmus. 
Os Conceitos estéticos, bem como os diferentes problemas relacionados com a natureza da arte desenvolvidos pelos diversos autores estão agrupados em quatro secções: 
- O que é a arte?
- Arte Contemporânea e experiência estética;
- Sujeito da apreciação e sensibilização estética;
- Tempo e memória através da arte.
Tive a honra de colaborar nesta Obra com o estudo intitulado “Da radicalidade da experiência estética” cujo Resumo transcrevo

Este trabalho tem como objetivo relançar o questionamento da experiência estética no seu horizonte de radicalidade. Pretende problematizá-la desde o seu referencial empírico até à inquirição do seu fundamento, legitimando a possibilidade de um “limiar” de transcendência, ou seja, de abertura ao absoluto, a uma “ultimidade” de sentido, ao Ser, arrimada numa verdadeira âncora ontológica e metafísica. A instrumentação metodológica que sustenta a análise e a argumentação pertence à fenomenologia existencial, enquanto articulada com o pensamento hermenêutico e a reflexão ontológica. Pensamos que este aprofundamento se justifica totalmente. É mesmo uma tarefa inadiável trazer de volta ao debate filosófico uma conceção fundacio­nal da experiência da arte e da vivência da beleza, tendo presente o contexto civilizacional no qual estamos mergulhados, enclausurado num relativismo neo-sofistico que invade e mina os alicerces da arte, os critérios do gosto, a essência da beleza, o ideal da formação estética.
Porém, se procuramos abrir uma brecha que nos permita refazer uma noção de experiência estética que tenha condições de progressão desde a feno­menologia para a ontologia e para a metafísica, fazemo-lo na plena preocu­pação de evitar a queda no esquema desgastado de pensar “a partir de cima”. Por isso compreende-se que esta reflexão se nutra do conceito de aisthêsis. A renovação deste conceito, forjado pelos gregos, oferece amplas perspetivas de resposta à estética idealista e normativa que a tradição nos legou, ao mesmo tempo que nos situa perante o fenómeno matricial do qual o pensamento de determinados autores, entre os quais pontua Mikel Dufrenne, jamais se afas­tará – o fenómeno do sentir. Pensar o sentir como fenómeno estético – como experiência estética – significa certamente conetá-lo com os objetos onde ela melhor de concretiza, chamemos-lhes, objetos belos, ou artísticos. Mas significa sobretudo, auscultar a instância, o solo no qual essa experiência lança as suas raízes, e que exigirá a dimensão ontológica e metafísica do “vivido”. “Vivido” que se caracteriza por uma dimensão de abertura que acompanha todas as fases da sua “experienciação”, tornando-a irredutível a qualquer categoria ou parâmetro de análise positivista. Este aspeto é, para nós, a prova de que só a chave interpretativa ontológica e metafísica responde em definitivo, filosofica­mente, ao sentido vivido no interior da experiência estética. É nessa linha que nos propomos, também, construir uma hipótese de leitura do pensamento de Mikel Dufrenne, cuja Obra aqui nos acompanha, ainda que submetendo-a a uma interpretação crítica.
Lancemos, pois, esta arriscada convicção: estamos persuadidos de que a mais decisiva significação para a qual aponta uma sólida estética fenomeno­lógica que pense a experiência da arte e da beleza, já não é a que determina o sentido do Ser através da Natureza, ou do Signo, ou da Linguagem, ou do Desejo, ou do Inconsciente, ou da Estrutura, mas a que projeta ou perspetiva um fundamento ontológico para a própria ideia de Natureza, de Signo, de Linguagem, de Desejo, de Inconsciente, de Estrutura através do Ser: o sentido em cujo desvendamento a estética fenomenológica participa é, em última instância, o sentido do Ser. É na posse da intuição deste “sentido ou direção” que havemos de encontrar a bússola orientadora tão necessária nos labirintos da cultura estética e artística de hoje.

> O índice dos artigos desta obra pode ser consultado aqui.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Estética, Arte e Intimidade - Tema de Encontro Científico-Filosófico

Foi com muita satisfação e proveito que ontem participei no IV Encontro Ibérico de Estética, dedicado ao tema: Estética, Arte e Intimidade (cf. comunicação, infra).
O evento foi organizado pelo Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pelo Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pela Sociedad Española de Estética y Teoría de las Artes. Teve lugar na FLUL e na FCSH da UNL. 
Este Encontro Internacional pretendeu debater as questões relacionadas com a intimidade, tanto do ponto de vista da estética como da criação artística. Problemas como os da natureza dos sentimentos estéticos na sua dimensão pública e/ou privada, reflexos e representações da intimidade e suas relações humanas na criação artística, papel da estética e da arte na criação de sentimentos de pertença e de identidade, estudo crítico de autores de referência em todos estas matérias, preencheram o rico programa do Encontro.
Esta iniciativa mostra a relevância da abordagem estética de todos os fenómenos humanos. 
Grato à Organização pela oportunidade desta iniciativa.

PROPOSTA DE COMUNICAÇÃO
AO IV ENCONTRO IBÉRICO DE ESTÉTICA: “ESTÉTICA, ARTE E INTIMIDADE”
Lisboa, de 14 a 16 de dezembro de 2017

Título da Comunicação:
          “Experiência estética e relação de intimidade”
Secção de referência:
          1. Estética e intimidade
Resumo:
«connaître, ici c'ést vraiment co-naître»
(Mikel Dufrenne. EP, I, 58).
Na economia do pensamento estético do filósofo Mikel Dufrenne, a categoria da intimidade é utilizada para reforçar os atributos da reciprocidade, da amizade cúmplice, da partilha e comunhão de sentimentos que estruturam a relação que se instala entre o sujeito e o objeto, no âmago da experiência estética. Neste sentido, intimidade é um conceito reticular, permutável pelo de “profundidade”, “interioridade”, “conaturalidade”. Por isso, a experiência estética é, por excelência, um zénite de intimidade, a ponto de espetador-obra-mundo-real aí se desvendarem, ou seja, aí retirem as suas vendas.
Contudo, contrariamente ao que esta notícia poderia deixar entender, a intimidade não designa um evento secreto, nem sequer uma parcela privada da vida oculta dos atores referidos. Decididamente, não estamos no registo do “intimismo”, da afeção particular, ao qual uma certa psicanálise tende a conferir o protagonismo. Damos aqui total guarida ao aviso lançado pelo nosso autor [Dufrenne], quando, a propósito do poder evocativo e expressivo da fala originária da obra de arte, nos alerta: «Não acreditai que esta fala diz o seu autor e que, por exemplo, revela os seus fantasmas: a obra autêntica não é um sintoma e não deve ser tratada como tal, J. F. Lyotard mostrou-o muito bem» (EP, II, 166). Uma intimidade que se converta em pretexto de uma função clínica não interessa a Dufrenne. Caso contrário, a arte reduzir-se-ia a uma terapia para o artista, e para o espetador, a uma oportunidade de diagnóstico (cf. "Le beau", 486, b).
Neste contexto interpretativo, a nossa comunicação pretende sublinhar dois aspetos. Em primeiro lugar, refletir o alcance desta leitura crítica do sentido da intimidade. Em segundo lugar, mostrar que preservando-a destas formas de instrumentalização, a categoria da intimidade fica disponível para contribuir para uma renovação de sentido dos arquitemas fenomenológicos da intencionalidade e da constituição do objeto na experiência estética.

Bibliografia fundamental:
Dufrenne, M. Phénoménologie de l’expérience esthétique, tome I - "L’Objet esthétique" ; tome II - "La Perception esthétique", PUF, Paris, 1953
- Dufrenne, M. Le poétique, PUF, Paris, 1963 - 2e. édition  revue et augmentée, préc. de: Pour une philosophie non théologique, 1973
- Dufrenne, M. Esthétique et Philosophie, tome I, II, III, Éditions Klincksieck, Paris, 1967, 1976, 1981
- Dufrenne, M., Dino Formaggio et al. Trattato di estetica (Mikel Dufrenne, t. I - “Storia”, t. II “Teoria”, Mondadori Editore, Milano, 1981
- Dufrenne, M. L’inventaire des a priori. Recherche de l’originaire, Christian Bourgois Editeur, Paris, 1981

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mestrado em Filosofia - Especialização em Estética e Teoria das Artes

"Uma Formação para Sentir/Pensar a Arte, Hoje"


A especialização em Estética e Teoria das Artes proporciona uma formação completa a quem pretenda investigar o diálogo entre a Filosofia, a Estética e as Artes, nomeadamente as Artes Visuais, Musicais e Literárias, nas múltiplas vertentes em que esse diálogo adquire sentido
Este Mestrado assenta no pressuposto de que a reflexão crítica sobre a aisthēsis e o mundo da arte requerem, necessariamente, o conhecimento aprofundado dos textos dos filósofos, dos textos dos diversos teóricos da arte, e o conhecimento das realidades e das práticas artísticas. Munidos destas bases será possível, então, compreender e debater os desafios das complexas controvérsias levantadas pela arte e pela sua experiência, edificar um pensamento rigoroso e fundamentado, ensaiar concetualmente um juízo crítico sobre tais matérias no conjunto das suas implicações culturais.
Este programa visa facultar a todos os participantes os meios necessários para que possam articular de forma inovadora e empenhada, num clima de total liberdade, excelência e respeito, a reflexão estético-filosófica e a experiência das artes, com destaque para a sua incidência na contemporaneidade.

A quem se dirige

Dirige-se a todos os detentores de saberes das ciências humanas, ciências da arte, ciências sociais, teologia e ciências religiosas, aos criadores das diversas disciplinas artísticas, bem como aos agentes culturais, profissionais e empreendedores das áreas da arte e da cultura.
Pretende-se que a problematização das experiências e dos conhecimentos já adquiridos por uns e por outros se complementem na investigação científica, quer das questões de fundo que hoje marcam a atmosfera cultural, ética, política e religiosa, como também das questões estético-filosóficas que proporcionem às artes um novo quadro interpretativo e fecunda inteligibilidade.

Objetivos e competências a desenvolver

- Conhecer, de forma aprofundada, o contributo das teorias estético-filosóficas para a interpretação e compreensão das questões atuais que circundam os fenómenos e as práticas artísticas.
- Adquirir um conhecimento crítico aprofundado dos problemas fundamentais da reflexão estético-filosófica em ligação estrita com as Artes.
- Analisar, argumentar e desenvolver as múltiplas ligações que potenciam as dinâmicas de convergência e de tensão entre a Filosofia e as Artes visuais, musicais e literárias.
- Selecionar metodologias adequadas aos projetos de investigação, nomeadamente, em ordem à dissertação de mestrado.
- Formular um quadro compreensivo e crítico da situação das Artes face à complexidade do mundo contemporâneo e seus desafios éticos, antropológicos, científicos, técnicos, sociais, espirituais.

Saídas Profissionais

Tratando-se de um Mestrado de Estudos Filosóficos Especializados em Estética e Artes Visuais, Musicais e Literárias, permitirá aos nossos estudantes movimentarem-se nos seguintes campos laborais:
- Investigação teórica e aplicada nos domínios da estética e das artes para prosseguimento de estudos de Doutoramento
- Profissões da arte, da mediação e da cultura
- Projetos de intervenção da arte nos diversos campos da realidade sociocultural
- Organismos de consultoria e assessoria na área artística e cultural
- Crítica de arte
- Comissariado de exposições
- Direção em museus, galerias de arte, centros de exposições
- Organismos de formação no campo da arte e da estética
- Periodismo de arte e cultura
- Organizações e empresas de fomento do desenvolvimento estético, artístico e cultural: associações, ong’s, casas da cultura, centros culturais, fundações, leiloeiras, coletividades
- Ministérios e instituições públicas (serviços e estudos prospetivos em políticas culturais e em desenvolvimento estético-artístico)
- Trabalhador independente

Acompanhamento Personalizado

Este Mestrado pretende proporcionar o desenvolvimento de investigações centradas e pertinentes. Para tal, os estudantes contarão com o acompanhamento sistemático dos docentes, num registo de orientação tutorial, em ordem à delimitação metodológica do seu objeto de estudo e à elaboração do trabalho de pesquisa.

Articulação com o centro de investigação

O Mestrado está solidamente apoiado no centro de investigação “Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos” sediado na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (UCP-Braga), no qual está radicado um projeto de Estética.
[cmorais.01Ag.2017]

sexta-feira, 30 de junho de 2017