sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Uma exposição sobre o tema da exposição: "O que é uma exposição?"

REPOSIÇÃO DE NOTÍCIA


Notícia sobre a exposição dedicada ao tema "O que é uma exposição?", que esteve patente na Faculdade de Filosofia em junho de 2007.

No átrio da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica/Braga está patente uma exposição sobre o tema "O que é uma exposição", organizada por Flora Oliveira, aluna do Curso de Estudos Artísticos e Culturais, planeada e realizada no âmbito da componente prática da Unidade Curricular designada Seminário em "Empreendedorismo e actividades no sector artístico e cultural".

Tendo investigado a temática da "exposição" como linguagem e meio de comunicação, na linha do trabalho desenvolvido por Ángela García Blanco, a aluna apresenta, de uma maneira bastante didáctica, os diferentes tipos de exposições: permanente, itinerante, temporária, móvel e portátil, bem como os exemplos de conteúdos expositivos: arte, antropologia, ciências, história e tecnologia... São também abordadas formas de circulação, de desenho e montagem de uma exposição, os métodos de iluminação e os dispositivos de apoio e de suporte. Toda esta informação está adequadamente documentada com imagens.
Convidam-se os agentes culturais, os profissionais da área da cultura, bem como todos os interessados a visitar esta original exposição.

(Notícia publicada anteriormente no endereço http://www.eacfacfil.net/?p=4932, em 08 de jullho de 2014; publicação original em 25 de Junho de 2007)

domingo, 7 de janeiro de 2018

Deuses e deusas da mitologia grega

REPOSIÇÃO DE TRABALHO

Texto de Samuel F. Beirão, aluno do 1º ano da Licenciatura em Filosofia. Realizado no âmbito da Unidade Curricular de Filosofia Antiga, a propósito do documentário “Os deuses e deusas da mitologia grega”, de Bram Rosse (material didático do Capítulo: Condições favoráveis ao aparecimento da Filosofia na Grécia"). 

Universidade Católica – Braga, 10.12.2009

A análise a este documentário vem no seguimento do estudo dos pré-socráticos, na disciplina de História
Os Doze Deuses Olímpicos
             Nicolas-André Monsiau,finais do séc. XVIII
da Filosofia Antiga. Este documentário pode dividir-se em duas partes: a religião grega e as suas repercussões no mundo romano e no cristianismo.
Antes de tudo, as Graças deram a beleza ao homem e as Musas as suas características. As Musas, filhas de Zeus e Mnemósine e habitantes de Olimpo, aparecem pela primeira vez no “Hino às Musas”, da Teogonia, de Hesíodo (1-115). São nove: a mais velha, Calíope, Clio, Euterpe, Talia, Melpómene, Terpsícore, Erato, Polímnia, Urânia. . Calíope sempre foi tida como a mais notável, a companheira dos reis, a que inspirava na administração da justiça. Às outras, pela sua fama de inspiradoras, foram-lhes atribuídas as artes, na época romana tardia. Assim, Calíope ficou com a Épica heróica; Clio, com a História; Euterpe, com a Música; a Comédia foi dada a Talia; a Tragédia, a Melpómene que, subsidiariamente, era a Musa do Canto e da Música; a Dança era a arte de Terpsícore; a Poesia Lírica, de Erato; a Mímica pertencia a Polimnia; e a Astronomia, a Urânia.
Os gregos tinham muito orgulho na forma humana, por isso atribuíram-na também aos deuses. Os deuses faziam o que lhes apetecia, eram superiores, mas estavam sujeitos às mesmas paixões, falhas e fraquezas que os homens. E estes tinham de refrear os seus apetites, por temor aos deuses, que não eram perfeitos, mas poderosos. Aliás, os homens criticavam os deuses.
Como vemos, o homem grego teve necessidade de criar estas entidades superiores para reger as suas relações sociais, a quem agradecer os seus dons e a quem atribuir as culpas dos seus males.
As Cidades-Estado gregas eram autónomas, embora tivessem língua, cultura e comércio comuns. Isto possibilitou que existissem deuses comuns a todas as Cidades e deuses privados. Temos Atena, Zeus, Hermes, Hera, Eros, Efesto, Poseidon, Pan, Artémis, Demeter e tantos outros, cada um com as suas características, as suas histórias, os seus poderes e vinganças. Até havia um altar para venerar o deus desconhecido, não fossem os gregos esquecer-se de algum, que os podia castigar, por não ser adorado. Os Jogos Olímpicos eram uma forma de celebrar e honrar os deuses, oferecendo-lhes os atletas o seu gasto de energia, o seu suor, as suas vitórias.
É neste contexto que a filosofia e o mundo intelectual encontram condições para florescer, em Atenas e por toda a Grécia: os gregos racionalizavam tudo.
Começam a questionar-se sobre a sua existência, a causa, a origem: para Tales de Mileto, a origem de tudo está na água: “todas as coisas estão cheias de deuses”, diz. Para ele, a água é o deus supremo.
Dois contemporâneos seus encontram outras primeiras causas para tudo o que existe: para Anaximandro, o primeiro princípio de tudo é o Indeterminado; para Anaxímenes, é o ar infinito.
Mas nestes Autores ainda não encontramos o conceito de deuses como o conhecemos; para eles, deuses são dotados de uma energia física, intelectual e afectiva bem à maneira natural e antropológica. Não pensam os deuses como hoje pensamos Deus, o Criador de todas as coisas, inclusive do homem. Ainda que os deuses sejam mais poderosos, homens e deuses concorrem. E misturam-se.
O documentário põe em evidência o lugar sagrado de Delfos. Em Delfos, vivia a sacerdotisa Pitia. Neste oráculo, podia perscrutar-se o futuro. Governavam Delfos Apolo e Dionisos. Apolo é a símbolo da ordem pública, da razão. Dionisos, por seu turno, simboliza a desordem, a vitalidade, a bebedeira, o excesso. Esta dicotomia foi sempre tão forte e influente que atravessou a História até Nietzsche, que n’O Nascimento da Tragédia opõe o espírito apolíneo ao espírito dionisíaco, a arte do escultor e a arte da música isenta de imagens; o sonho e o êxtase.
Além dos deuses do Olimpo, os gregos admitiam também as divindades do mundo subterrâneo, habitado por existências sombrias, onde não havia vida consciente. O seu lugar terrível estava identificado como o Hades.
Para os gregos, é claríssima a distinção entre o corpo e a alma. Vejamos o que Platão põe na boca de Sócrates, no diálogo Fedro: “O ser vivo e mortal é o conjunto do corpo e da alma, solidamente ajustados um ao outro (…) Deus é um ser vivo imortal que possui uma alma, que também possui um corpo, ambos unificados para uma duração eterna” (246c).
A alma – psique (respirar) – do recém-morto há-de atravessar o Rio Aqueronte, levada por Caronte, até ao Hades. A morte é a eternidade de sonhos vazios. Existem dois níveis, no Hades: o Erebus, para onde as almas vão logo a seguir à morte, e o Tartarus, para onde vão as almas que ofenderam os deuses.
Foram os homens gregos que criaram esta religião olímpica, por precisarem de uma alteridade a quem entregassem o poder, a fim de serem regidos desde cima e, não, uns pelos outros. E, agora, tudo lhes chega desde o exterior, provindo dos apetites, dos sentimentos e das paixões dos seus deuses. Assim era o mundo religioso grego.
A segunda parte do documentário fala-nos da incidência da religião grega nos romanos e no cristianismo.
Os romanos descobriram a religião grega no séc.III a. C. e sobrevalorizaram-na: atribuíram nomes romanos aos deuses gregos e deram-lhes um estatuto ainda mais elevado.
Com a extensão do Império até à Judeia, é normal que o cristianismo beba das culturas grega e romana. Em especial, o Apóstolo Paulo, cidadão romano, que viaja pelo Império Romano e pelas ilhas gregas. Chega a falar no Areópago acerca do verdadeiro Deus, Criador de todas as coisas e perto de cada um dos homens (Act 17, 22-27). Esta é uma novidade: um Deus único.
Os alicerces gregos ajudaram à propagação do cristianismo, ainda que não tenham relação directa. Podemos notá-lo nestes três exemplos:
1) Jesus, Filho de Deus, nascido de uma mortal (como os heróis gregos).
2) O conceito de pecado derivado do termo grego amarthia, falhar o alvo.
3) A moralidade pessoal, questão abordada já nos mitos gregos.
Todos estes elementos mostram que a religiosidade grega e a problemática em seu torno é uma questão actual, atravessou milénios
Terminamos com a última ideia do documentário: há uma força enorme que controla os humanos. Temos de a respeitar. A consciência da existência desta força e as perguntas sem resposta fizeram as questões gregas chegarem até hoje.

Bibliografia:

·  Bíblia Sagrada, Actos dos Apóstolos, 17, 22-27.
·  Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia,Verbo: Platão. 
·  Gauchet, M. - “A dívida do sentido e as raízes do Estado. Política da Religião Primitiva” in AAVV, Guerra, Religião, Poder, Lisboa: Ed. 70, 1980, p. 51-88.
·  Gilson, E. – Deus e a Filosofia, trad. de Aida Macedo. Lisboa: Ed. 70, 1941.
·  Nietzsche, F. – Nascimento da Tragédia, Trad. de Helga Hoock Quadrado. Lisboa: Relógio d’Água Editores, Junho de 1997.
·  Platão – Fedro. Trad. de Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimarães e C.ª Editores, 1981. 


(Este trabalho esteve anteriormente publicado no endereço: http://www.eacfacfil.net/?m=201506, em 30.06.2015)

sábado, 6 de janeiro de 2018

Conceitos Estéticos // "Da Radicalidade da Experiência Estética"

Acaba de ser publicada (dezembro/2017) a obra “CONCEITOS ESTÉTICOS / CONCEPTOS
ESTÉTICOS”, resultante do II Encontro Ibérico de Estética, organizada pelos professores María José Alcaraz Léon e Vítor Moura, publicada pela Editora Húmus. 
Os Conceitos estéticos, bem como os diferentes problemas relacionados com a natureza da arte desenvolvidos pelos diversos autores estão agrupados em quatro secções: 
- O que é a arte?
- Arte Contemporânea e experiência estética;
- Sujeito da apreciação e sensibilização estética;
- Tempo e memória através da arte.
Tive a honra de colaborar nesta Obra com o estudo intitulado “Da radicalidade da experiência estética” cujo Resumo transcrevo

Este trabalho tem como objetivo relançar o questionamento da experiência estética no seu horizonte de radicalidade. Pretende problematizá-la desde o seu referencial empírico até à inquirição do seu fundamento, legitimando a possibilidade de um “limiar” de transcendência, ou seja, de abertura ao absoluto, a uma “ultimidade” de sentido, ao Ser, arrimada numa verdadeira âncora ontológica e metafísica. A instrumentação metodológica que sustenta a análise e a argumentação pertence à fenomenologia existencial, enquanto articulada com o pensamento hermenêutico e a reflexão ontológica. Pensamos que este aprofundamento se justifica totalmente. É mesmo uma tarefa inadiável trazer de volta ao debate filosófico uma conceção fundacio­nal da experiência da arte e da vivência da beleza, tendo presente o contexto civilizacional no qual estamos mergulhados, enclausurado num relativismo neo-sofistico que invade e mina os alicerces da arte, os critérios do gosto, a essência da beleza, o ideal da formação estética.
Porém, se procuramos abrir uma brecha que nos permita refazer uma noção de experiência estética que tenha condições de progressão desde a feno­menologia para a ontologia e para a metafísica, fazemo-lo na plena preocu­pação de evitar a queda no esquema desgastado de pensar “a partir de cima”. Por isso compreende-se que esta reflexão se nutra do conceito de aisthêsis. A renovação deste conceito, forjado pelos gregos, oferece amplas perspetivas de resposta à estética idealista e normativa que a tradição nos legou, ao mesmo tempo que nos situa perante o fenómeno matricial do qual o pensamento de determinados autores, entre os quais pontua Mikel Dufrenne, jamais se afas­tará – o fenómeno do sentir. Pensar o sentir como fenómeno estético – como experiência estética – significa certamente conetá-lo com os objetos onde ela melhor de concretiza, chamemos-lhes, objetos belos, ou artísticos. Mas significa sobretudo, auscultar a instância, o solo no qual essa experiência lança as suas raízes, e que exigirá a dimensão ontológica e metafísica do “vivido”. “Vivido” que se caracteriza por uma dimensão de abertura que acompanha todas as fases da sua “experienciação”, tornando-a irredutível a qualquer categoria ou parâmetro de análise positivista. Este aspeto é, para nós, a prova de que só a chave interpretativa ontológica e metafísica responde em definitivo, filosofica­mente, ao sentido vivido no interior da experiência estética. É nessa linha que nos propomos, também, construir uma hipótese de leitura do pensamento de Mikel Dufrenne, cuja Obra aqui nos acompanha, ainda que submetendo-a a uma interpretação crítica.
Lancemos, pois, esta arriscada convicção: estamos persuadidos de que a mais decisiva significação para a qual aponta uma sólida estética fenomeno­lógica que pense a experiência da arte e da beleza, já não é a que determina o sentido do Ser através da Natureza, ou do Signo, ou da Linguagem, ou do Desejo, ou do Inconsciente, ou da Estrutura, mas a que projeta ou perspetiva um fundamento ontológico para a própria ideia de Natureza, de Signo, de Linguagem, de Desejo, de Inconsciente, de Estrutura através do Ser: o sentido em cujo desvendamento a estética fenomenológica participa é, em última instância, o sentido do Ser. É na posse da intuição deste “sentido ou direção” que havemos de encontrar a bússola orientadora tão necessária nos labirintos da cultura estética e artística de hoje.

> O índice dos artigos desta obra pode ser consultado aqui.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Estética, Arte e Intimidade - Tema de Encontro Científico-Filosófico

Foi com muita satisfação e proveito que ontem participei no IV Encontro Ibérico de Estética, dedicado ao tema: Estética, Arte e Intimidade (cf. comunicação, infra).
O evento foi organizado pelo Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pelo Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pela Sociedad Española de Estética y Teoría de las Artes. Teve lugar na FLUL e na FCSH da UNL. 
Este Encontro Internacional pretendeu debater as questões relacionadas com a intimidade, tanto do ponto de vista da estética como da criação artística. Problemas como os da natureza dos sentimentos estéticos na sua dimensão pública e/ou privada, reflexos e representações da intimidade e suas relações humanas na criação artística, papel da estética e da arte na criação de sentimentos de pertença e de identidade, estudo crítico de autores de referência em todos estas matérias, preencheram o rico programa do Encontro.
Esta iniciativa mostra a relevância da abordagem estética de todos os fenómenos humanos. 
Grato à Organização pela oportunidade desta iniciativa.

PROPOSTA DE COMUNICAÇÃO
AO IV ENCONTRO IBÉRICO DE ESTÉTICA: “ESTÉTICA, ARTE E INTIMIDADE”
Lisboa, de 14 a 16 de dezembro de 2017

Título da Comunicação:
          “Experiência estética e relação de intimidade”
Secção de referência:
          1. Estética e intimidade
Resumo:
«connaître, ici c'ést vraiment co-naître»
(Mikel Dufrenne. EP, I, 58).
Na economia do pensamento estético do filósofo Mikel Dufrenne, a categoria da intimidade é utilizada para reforçar os atributos da reciprocidade, da amizade cúmplice, da partilha e comunhão de sentimentos que estruturam a relação que se instala entre o sujeito e o objeto, no âmago da experiência estética. Neste sentido, intimidade é um conceito reticular, permutável pelo de “profundidade”, “interioridade”, “conaturalidade”. Por isso, a experiência estética é, por excelência, um zénite de intimidade, a ponto de espetador-obra-mundo-real aí se desvendarem, ou seja, aí retirem as suas vendas.
Contudo, contrariamente ao que esta notícia poderia deixar entender, a intimidade não designa um evento secreto, nem sequer uma parcela privada da vida oculta dos atores referidos. Decididamente, não estamos no registo do “intimismo”, da afeção particular, ao qual uma certa psicanálise tende a conferir o protagonismo. Damos aqui total guarida ao aviso lançado pelo nosso autor [Dufrenne], quando, a propósito do poder evocativo e expressivo da fala originária da obra de arte, nos alerta: «Não acreditai que esta fala diz o seu autor e que, por exemplo, revela os seus fantasmas: a obra autêntica não é um sintoma e não deve ser tratada como tal, J. F. Lyotard mostrou-o muito bem» (EP, II, 166). Uma intimidade que se converta em pretexto de uma função clínica não interessa a Dufrenne. Caso contrário, a arte reduzir-se-ia a uma terapia para o artista, e para o espetador, a uma oportunidade de diagnóstico (cf. "Le beau", 486, b).
Neste contexto interpretativo, a nossa comunicação pretende sublinhar dois aspetos. Em primeiro lugar, refletir o alcance desta leitura crítica do sentido da intimidade. Em segundo lugar, mostrar que preservando-a destas formas de instrumentalização, a categoria da intimidade fica disponível para contribuir para uma renovação de sentido dos arquitemas fenomenológicos da intencionalidade e da constituição do objeto na experiência estética.

Bibliografia fundamental:
Dufrenne, M. Phénoménologie de l’expérience esthétique, tome I - "L’Objet esthétique" ; tome II - "La Perception esthétique", PUF, Paris, 1953
- Dufrenne, M. Le poétique, PUF, Paris, 1963 - 2e. édition  revue et augmentée, préc. de: Pour une philosophie non théologique, 1973
- Dufrenne, M. Esthétique et Philosophie, tome I, II, III, Éditions Klincksieck, Paris, 1967, 1976, 1981
- Dufrenne, M., Dino Formaggio et al. Trattato di estetica (Mikel Dufrenne, t. I - “Storia”, t. II “Teoria”, Mondadori Editore, Milano, 1981
- Dufrenne, M. L’inventaire des a priori. Recherche de l’originaire, Christian Bourgois Editeur, Paris, 1981

domingo, 3 de dezembro de 2017

Aristóteles, cientista: estudo recente confirma a sua atualidade

Como se sabe, Aristóteles não foi apenas um génio especulativo que, nesse registo, nos deixou uma obra incontornável sobre ontologia, metafísica, teologia, ética, política, estética, lógica,
 La Lagune. Et Aristote inventa la science 
psicologia, física; foi também um exímio estudioso da natureza, tentando compreender tudo o que a natureza contém, corpos celestes, animais, plantas, de tudo elaborando registos, descrições precisas e classificações.
A obra agora publicada de Armand Marie Leroi, La Lagune. Et Aristote inventa la science (Flammarion, 2017, 574 p.), atesta e demonstra a importância e a atualidade das investigações de Aristóteles nomeadamente na área da biologia, colocando questões muito atuais sobre a natureza dos seres vivos. J.-F. Dortier na revista Sciences Humaines (nº 298, déc., 2017) apresenta-nos uma síntese desta da obra, que vale a pena registar:
«Aristóteles leu e criticou os seus predecessores, os physiologoi como Xenófanes, Heraclito, Empédocles, Górgias, Demócrito, que antes dele escreveram tratados “sobre a natureza”. Mas Aristóteles não se contentou em compilar os saberes do seu tempo. Na ilha de Lesbos, onde permaneceu um tempo, dirigiu-se aos portos observar as bancas de peixe, interrogou os pescadores, sabe como os golfinhos se reproduzem, descreve a sua anatomia ao detalhe. Se os seus conhecimentos sobre os camelos ou os rinocerontes são pouco precisos e de terceira mão, sabe que é preciso considerar estes saberes indiretos com prudência. Há que considerar Aristóteles como um simples empirista, desejoso de classificar os factos, ou pelo contrário como um filósofo da natureza que especula sobre as leis da natureza sem as conhecer suficientemente? Nem um nem o outro, sugere A. M. Leroi. Aristóteles é um espírito científico que deseja compreender a natureza profunda das coisas e por isso estuda-a de perto.
“Dizer que Aristóteles era um cientista, é supor que se possa conhecer um cientista. Desde há muito tempo, os sociólogos e os filósofos tentaram apreender esta criatura, com resultados mitigados dado que as ciências que indagam possuem tanta atividade e preocupações diversas que é difícil encontrar uma definição que as englobe as todas”. No máximo pode-se dizer que um cientista é “alguém que se esforça, mediante uma investigação sistemática, por compreender a realidade que experimenta”.
Segundo esta definição ampla e generosa, que engloba tanto “os que fazem física teórica, os especialistas de besouros e certos sociólogos”, Aristóteles é certamente um verdadeiro homem de ciência. E talvez o primeiro deles.
O seu estudo sobre os animais inscreve-se na sua “teoria das quatro causas”, que guia o seu percurso. Face a todo o ser, diz-nos Aristóteles, é necessário colocar quatro questões: 1) de que é que isso é feito? (causa material), 2) o que é isso, qual é a sua essência ou a sua forma? (causa formal), 3) o que é que a anima? (causa eficiente), por fim 4) para que serve? (causa final).
Aristóteles dedicou um livro inteiro, Das Partes dos Animais, para responder à questão da causa material (de que são feitos os animais?). Não menos de 500 espécies são classificadas (segundo um sistema de classificação muito engenhoso que procura articular diversos critérios) e descritas. Conhecia a anatomia interna de 110 espécies. Os rins e a bexiga de uma vaca ou de uma tartaruga não tinham segredo para ele. Quanto às ovelhas: “Aristóteles conhecia bastante de criação de ovelhas”.
Aristóteles - Estagira (Macedónia)
384-322a.C
Mas a questão que o preocupa é a do nascimento das formas (a causa formal): “Como é que um humano dá origem a um humano e não a um cavalo?” A resposta idealista de Platão, que defendia que a forma dos seres (da formiga ou do cavalo) provinha das formas ideais vindas do céu das ideias puras, não o podia satisfazer. Os seguidores de Hipócrates evocavam a partilha dos fluídos do pai e da mãe aquando do acasalamento.  Aristóteles foi mais longe na investigação. Em A Geração dos animais, dedicou muitas páginas a descrever o aparelho sexual dos canários, leões, macacos, insetos… Interessou-se pelo esperma que é o vetor pelo qual as formas se transmitem. Também observou os embriões para ver se o feto está já formado ou não.
Há algum tempo, parecia que a questão de Aristóteles sobre a génese das formas estava já resolvida: o segredo das formas vivas está no ADN. Com a ressalva de que a biologia entrou hoje numa idade da epigénese que refuta o papel exclusivo dos genes na construção dos organismos.
Uma nova disciplina se dedica ao estudo da morfogénese (ou génese das formas) dos seres vivos e procura captar o papel respetivo dos genes, das condicionantes mecânicas e da ação do meio na formação dos organismos.
Acontece que aquele que relançou o estudo da morfogénese é o inglês sir d’Arcy Thompson (1860-1948). Não se trata de um acaso se, alguns anos antes da redação da sua obra fundadora sobre o desenvolvimento das formas (1910) se entregou à tradução das Histórias dos animais de Aristóteles. Foi também Arcy Thompson quem colocou A. M. Leroi na pista de uma de uma “larga e calma lagoa” situada na ilha de Lesbos onde parece que Aristóteles foi observar a diversidade de peixes e de conchas.» (Tradução adaptada por Carlos B. Morais).

sábado, 18 de novembro de 2017

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA 2017 NA FFCS: "Filosofia e Transformação do Ser Humano e da Sociedade"

> Jornada Comemorativa:
A Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FFCS) integrou-se na Comemoração Internacional do Dia Mundial da Filosofia 2017, celebrado no passado dia 16 de novembro. Para tal, organizou a Jornada dedicada ao tema: "Filosofia e Transformação do Ser Humano e da Sociedade", realizada na Aula Magna desta Faculdade. 
Esta Jornada Filosófica foi organizada em parceria com a Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática (APEFP) e em colaboração com diversas Escolas e Colégios do Ensino Secundário da Região.

> Notícia de Apresentação:

À semelhança do que tem acontecido nos anos anteriores, a Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FFCS) associa-se mais uma vez à celebração do Dia Mundial da Filosofia, patrocinado pela Unesco, promovendo uma Jornada de reflexão temática e de sensibilização dos jovens para o estudo da Filosofia.
Esta Jornada realizar-se-á no próximo dia 16 de novembro, na Aula Magna da FFCS, com início às 9H00 e finalização por volta das 12H30.
A temática geral desta Jornada, alinhada com a proposta da Unesco, versará a função da Filosofia como tarefa de transformação do ser humano e da sociedade. Será desdobrada mediante quatro palestras intituladas "Filosofia e Redes Sociais" (Eugénio Oliveira), “Filosofia e Gestão” (Carlos Louro), “Filosofia e Direitos Humanos" (Nuno Fadigas), "Maldito Quadrilátero: O Caso do Achismo" (Artur Galvão). Após cada palestra haverá um período de diálogo com a assistência.
O Programa das Jornadas inclui ainda a apresentação dos Prémios Nacionais de Ensaio Filosófico em Ética e  Filosofia e no Conto Filosófico para Crianças. Finalmente haverá lugar para a apresentação de um diaporama sobre as edições anteriores do Dia Mundial da Filosofia na FFCS.
A Jornada pretende também dar continuidade à “política” da valorização dos antigos alunos da Faculdade, graduados e pós-graduados em Filosofia, chamando-os a colaborar ativamente, dando-lhes a vez e a voz. Nesta linha, a organização da Jornada tem como parceiro institucional a Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática, uma dinâmica associação dirigida por antigos alunos da FFCS. São também antigos alunos os oradores das palestras que compõem o Programa da Jornada.
Mas o objetivo estratégico da Jornada centra-se na promoção da Filosofia junto dos jovens que estão a finalizar os estudos secundários, de modo a despertar neles o interesse, a curiosidade e a motivação para o prosseguimento de estudos nesta área do conhecimento. Por isso, estas Jornadas contarão com a presença de um significativo número de Escolas e Colégios da região, que trarão à Aula Magna da FFCS as suas turmas do ensino secundário.

Carlos Morais - Coord. da Jornada
 A FFCS tem feito um esforço notável para que todos os candidatos que manifestam aptidão para o estudo da Filosofia, se possam candidatar e realizar os seus estudos, sem o acréscimo de custos que as propinas sempre acarretam; para tal, a Faculdade oferece aos alunos de Filosofia bolsas de estudo que tornam a propina de valor equivalente ao que é praticado pelas Universidades do Estado. Deste modo, a FFCS pretende continuar a dar o seu contributo para manter presente a Filosofia na sociedade e na cultura portuguesas. Há mais de 70 anos que esta Faculdade forma, a partir de Braga, sucessivas gerações de filósofos que muito têm enriquecido todos os sectores da Sociedade em que eles se inserem. Uma verdadeira responsabilidade intelectual de que os atuais responsáveis se orgulham, assumem e querem transmitir aos vindouros. (Carlos B. Morais)

> Programa da Jornada:
09H30 – Receção e boas-vindas às Escolas Participantes
               - José R Costa Pinto – Coord. de Filosofia da FFCS
               - Eugénio Oliveira – Presidente da APEFP
09H45 – 1ª Palestra: Eugénio Oliveira: "Filosofia e Redes Sociais"
10H15 – 2ª Palestra: Carlos Louro: “Filosofia e Gestão”
10H45 – Coffee break / Convívio
11H00 – 3ª Palestra: Nuno Fadigas: “Filosofia e Direitos Humanos"
11H30 – 4ª Palestra: Artur Galvão: "Maldito Quadrilátero: O Caso do Achismo"
12H00 – Eugénio Oliveira: Apresentação dos Prémios Nacionais de Filosofia:
            - Prémio Nacional do Ensaio em Ética e Filosofia
            - Prémio Nacional do Conto Filosófico para Crianças
12H15 – Carlos Morais: Apresentação de videograma sobre A Filosofia na FFCS
12H25 – Agradecimentos e despedida: Miguel Gonçalves – Diretor da FFCS

> Escolas e respetivos Docentes presentes nos trabalhos da Jornada:
- Alfacoop / Externato D. Henrique: Profªs. Isabel C Araújo e Maria La Salete Pereira
- Colégio D. Diogo de Sousa: Profª. Margarida Dias e Profº. Manuel Rocha Pereira
- Colégio João Paulo II: Profª Joana Faria e Profº Pedro Louçano
- Escola Secundária de Alberto Sampaio: Profª Deolinda Ferreira e Profº José M Santos
- Escola Secundária de Maximinos: Profª Maria Adelaide S Oliveira
- Instituto Nun'Álvres / Colégio das Caldinhas: Profª. Raquel S L Costa e Profº. José Carlos E Eira

> Fotos da Jornada (aqui)

> Documentário

domingo, 12 de novembro de 2017

“FILOSOFIA PARA PEQUENOS GRANDES FILÓSOFOS” - Nota de Apresentação

“FILOSOFIA PARA PEQUENOS GRANDES FILÓSOFOS”
de Rosa Maria Conde Proença, com ilustrações de Patrícia Isabel Pires Correia,
Lisboa: Chiado Editora, Setembro de 2017

Apontamento para a sessão de Lançamento do Livro
 na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, Braga, em 11 de novembro de 2017

in Jornal Diário do Minho Digital: 
https://www.diariodominho.pt/2017/11/16/filosofia-para-pequenos-grandes-filosofos/